A greve dos caminhoneiros: 5 aprendizados para um futuro circular

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A greve dos caminhoneiros afetou a nossa realidade de tal forma que não dá pra falar de outra coisa esta semana.

De um momento para o outro, passamos a viver um cenário de escassez e incerteza. Postos de gasolina fechados, mercados desabastecidos, escolas sem aulas, poucos ônibus em circulação, poucos carros nas ruas. Quem ainda tinha algum combustível no tanque, repensou suas prioridades para decidir em que momento gastá-lo. Quem mora em comunidades remotas, sentiu rapidamente a falta de suprimentos e a suspensão de alguns serviços básicos.

Ainda que temporária, é uma situação que pode nos ensinar bastante. Nesses dias de greve, nós sentimos na pele o desconforto desse cenário de escassez – e ele nos traz aprendizados valiosos.

Optamos aqui por tentar entender como esse fenômeno reverbera em relação ao nosso assunto preferido – a economia circular. Assim, sintetizamos abaixo 5 aprendizados que a greve dos caminhoneiros nos traz em relação ao nosso modelo atual, e a necessidade de transformá-lo para garantir um futuro com segurança, saúde e abundância.

1 – Nosso sistema de distribuição de bens é extremamente frágil.

Os caminhoneiros atingiram o objetivo de demonstrar a importância do seu trabalho, já que, em poucos dias, a paralisação de suas atividades alterou drasticamente a rotina de todos, provocando escassez de combustível e suprimentos por todo o país. Mas a greve também serve para nos mostrar a fragilidade do nosso sistema linear de produção e distribuição, completamente dependente de recursos não renováveis cada vez mais escassos, e a rapidez com que as necessidades mais básicas da população podem deixar de ser atendidas se esse sistema falhar.

A instabilidade gerada pelo aumento do valor do petróleo no setor de transporte, devido a estratégias políticas do país em relação ao mineral, tende a se repetir com outras commodities. Neste caso, a solução que foi dada, redução de impostos sobre o diesel (o que, como veremos, não faz nenhum sentido como estratégia para a nossa saúde e futuro), atendeu momentaneamente às reivindicações do setor. Em um futuro muito próximo essa instabilidade pode vir de fatores bem mais difíceis de mitigar, como o esgotamento de recursos e alterações extremas devidas às mudanças climáticas que nosso planeta atravessa.

imagem: Danilo Verpa / Folhapress

2 – É preciso diversificar.

Dependemos (quase) exclusivamente do transporte rodoviário. O transporte rodoviário depende (quase) exclusivamente do óleo diesel e da gasolina como combustíveis. Um dos 3 princípios Cradle to Cradle  que informam nossa abordagem à economia circular preconiza a importância da diversidade, que fortalece os sistemas e traz resiliência à instabilidade. Isso não se restringe à biodiversidade, mas também à diversidade de soluções e fontes de energia. Nesse caso, está mais do que clara a necessidade tanto da diversificação de combustíveis, quanto da diversificação da malha de transportes brasileira, e essa precisa ser a prioridade a longo prazo das políticas públicas.

Outro princípio Cradle to Cradle é o de utilizar a fonte solar ilimitada, chamando a atenção para o uso de energias renováveis, que nunca se esgotam. Apesar de crescente, apenas 6% da energia gerada no Brasil vem do Sol e dos ventos. Apostar nas energias renováveis para além das hidrelétricas (que causam impactos ambientais e sociais irreversíveis, vide a tragédia de Belo Monte) é uma solução estratégica para a diversificação da matriz elétrica nacional e a democratização do setor. É necessário a retomada urgente de políticas públicas que priorizem e acelerem a implementação desta estratégia.

3 – A cidade fica mais gostosa sem o petróleo…

Nesses dias em que ficamos sem gasolina e sem diesel, pudemos vivenciar outras formas de nos transportar e de viver as nossas cidades. Nesta última semana, em São Paulo, as ciclovias bateram o recorde de utilização, e a poluição do ar diminuiu pela metade. Para muitos de nós, a bicicleta e o andar a pé se tornaram uma forma de praticarmos as nossas atividades e continuarmos com o nosso dia a dia. As cidades estavam menos poluídas e mais quietas, pudemos ouvir mais o canto dos pássaros… Por que isso não pode ser mais próximo do nosso normal?  

imagem: vadebike / Bike Zona Oeste

4 – Nossa comida vem de muito longe.

Poucas pessoas sabem de onde vem o alimento que consomem. No geral, a comida do brasileiro atravessa distâncias muito longas para chegar às prateleiras locais, e a greve dos caminhoneiros também serviu para tornar esse fato visível. Poucos dias após o início da paralisação, começaram a faltar frutas, legumes, verduras, carnes e outros itens perecíveis em diversas cidades do país.

Para garantir a manutenção das necessidades nutricionais básicas da população mesmo em momentos de instabilidade logística ou econômica, é necessário investir na produção local de alimentos.  Para isso, existe uma gama ampla de soluções a serem adotadas, como a criação de hortas urbanas, agricultura vertical, e estímulo à agricultura familiar adaptada às condições de cada estado.

O modelo de agricultura monocultora e exportadora é resquício de um Brasil antigo e colonial, enfraquece a indústria e a biodiversidade, e gera instabilidade econômica, ambiental, social e de saúde.  

5 – No longo prazo, subsidiar combustíveis fósseis é um mau negócio para as pessoas, para o país e para o planeta.

Nosso modelo produtivo atual – a economia linear – consome recursos finitos como se eles nunca fossem se esgotar. É o caso dos combustíveis fósseis, entre os quais o diesel e a gasolina.

imagem: agencia brasil / iG último segundo

A greve dos caminhoneiros começa com o descontentamento em relação ao aumento no preço do diesel. Independente de como essa reivindicação será atendida neste momento, no longo prazo a tendência é o preço dos combustíveis fósseis continuar a subir. Simplesmente porque são um recurso finito, que se torna cada vez mais difícil – e mais caro – de extrair. Se não lidarmos com isso agora, nossos filhos e netos terão que lidar.

No longo prazo, subsidiar a produção de combustíveis fósseis é um mau negócio. É um mau negócio para as pessoas, que vão continuar respirando o ar poluído que sai dos escapamentos de carros e caminhões. É um mau negócio para o país, que perde a oportunidade de tomar a liderança no desenvolvimento inovador de novos combustíveis e fontes de energia, e compromete recursos públicos para manter a dependência de um material cujos preços vão continuar oscilando até o esgotamento. E é um mau negócio para o planeta, já que a insistência em seguir queimando combustíveis fósseis contribui para a concentração de gases de efeito estufa na atmosfera, agravando ainda mais o quadro de mudanças climáticas que já causa instabilidade e crises econômicas e sociais por todo o mundo.  

A redução do preço do óleo diesel pode ser necessária neste momento, mas no longo prazo, o que merece – e precisa – ser subsidiado é a inovação para o desenvolvimento de novos combustíveis limpos e renováveis. E isso não precisa ser uma ameaça às necessidades expressas durante a greve dos caminhoneiros. Afinal, o que eles estão reivindicando é combustível a um preço acessível, que não inviabilize seu trabalho. O diesel é simplesmente o combustível que roda os caminhões atualmente. Mas com certeza ninguém se oporia a novas alternativas mais limpas. Pelo contrário – quem não gostaria de saber que seu veículo deixa de poluir o ar por onde passa, e deixa de depender de fontes instáveis e não-renováveis para funcionar?

A situação de escassez gerada pela greve dos caminhoneiros é uma oportunidade de reflexão e transformação. Ao invés de nos esforçarmos para manter um sistema frágil e falido, que ela sirva para tomarmos as providências necessárias para garantir um futuro de abundância e segurança para todos. Porque o que hoje pode parecer uma escassez ‘momentânea’  pode se tornar nossa realidade diária, se não tivermos a coragem e visão de longo prazo para transformar a forma como nos relacionamos com os recursos do planeta.

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