A proibição de canudos plásticos é uma boa solução?

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A proibição de canudos plásticos descartáveis vem tomando uma dimensão global cada vez mais disseminada – na mídia e nas redes sociais. No ano de 2018 circularam muitos artigos e campanhas com imagens contundentes sobre o mau uso do plástico.

Entre eles, um vídeo de 2015, gravado no litoral da Costa Rica, viralizou na internet mostrando o esforço de ambientalistas para retirar um canudo preso na narina de uma tartaruga marinha. Tornou-se referência dos males que um pequeno objeto, como um canudinho, pode fazer para os seres marinhos.

Um estudo da Fundação Ellen MacArthur em parceria com a McKinsey que vem sendo bastante citado calcula que até 2050 haverá mais plástico que peixes nos oceanos, se o padrão de consumo não mudar. De acordo com o documento, são cerca de 8 milhões de toneladas despejadas por ano nos mares de todo o mundo. Estima-se que até 2050 o número quadruplique…

De Buckingham ao Rio de Janeiro – a proibição de canudos

Não demorou para os canudos serem considerados pela imprensa os novos vilões do meio ambiente. Com a divulgação do problema, e a opinião pública cada vez mais contrária aos plásticos, a proibição de canudos de plástico e outros produtos descartáveis é uma das medidas que vêm sendo adotadas por governos, empresas e instituições de diversos países.

Entre as mais divulgadas esteve a rainha da Inglaterra, Elizabeth II, que em fevereiro de 2018 decretou a proibição de canudos plásticos, assim como outros itens do mesmo material em seu palácio.  

No Brasil, o município do Rio de Janeiro proibiu o uso de canudos plásticos descartáveis em julho de 2018, com multas de até 3 mil reais para quem descumprir a lei. Apesar da preocupação ambiental, a lei não parece ser efetiva, uma vez que apenas proíbe o uso dos canudos plásticos descartáveis, não incentivando ao mesmo tempo o desenvolvimento de soluções alternativas para o consumo. O resultado? Falta de critérios e soluções inadequadas.

Alguns comerciantes cariocas passaram a usar o plástico com um aditivo misturado para acelerar a decomposição do material, chamado oxibiodegradável. Infelizmente o material oxibiodegradável se transforma em microplástico, sem uma degradação completa. Outra consequência foi o aumento no uso de outros tipos de produtos plásticos, como o copo para substituir o canudo.

O caso coincide com um projeto de lei também no Rio de Janeiro, que agora pretende proibir o uso dos copos plásticos. Pelo projeto, determina-se a proibição dos copos plásticos descartáveis em todos os restaurantes, bares, lanchonetes, barracas de praia, ambulantes e similares. A ideia é substituí-los por copos de materiais comprovadamente biodegradáveis ou de uso permanente.

Mas aqui o projeto de lei cai no mesmo problema, falta incentivo  para o desenvolvimento de soluções alternativas para o consumo.

A proibição de canudos não resolve o problema, mas ajuda na discussão

O tamanho do problema

O canudo normalmente é usado por alguns minutos quando se toma uma bebida, mas demora até 200 anos para se decompor, uma vez que são compostos normalmente de polipropileno ou poliestireno, materiais não biodegradáveis. Então, não é impossível pensar que a solução seja uma proibição de canudos de plástico descartáveis.

Só nos Estados Unidos todos os dias são usados 500 milhões de canudos – pelo menos foi o que um garoto de 9 anos calculou em 2011, quando ele lançou a campanha “BeStrawFree”. Sua estimativa passou a ser a mais citada por importantes jornais americanos e até brasileiros. E ainda que a pesquisa do garoto não tenha base científica, calcula-se que a estimativa para o Brasil não fique muito atrás dos supostos dados americanos… Segundo dados divulgados pela Folha de São Paulo, se os canudos consumidos pelos brasileiros em um ano fossem colocados lado a lado, seria possível dar uma volta completa na Terra, em uma linha de mais de 45.000 quilômetros de largura em um muro de 2,10 metros de altura.

Independente da quantidade exata de consumo nos canudos plásticos descartáveis, a realidade é que a produção de plásticos em geral aumentou nos últimos 50 anos, crescendo de 15 milhões de toneladas em 1964 para 311 milhões de toneladas em 2014, de acordo com a Fundação Ellen MacArthur. E deve dobrar novamente nos próximos 20 anos, dado o crescente número de aplicações que utilizam plásticos. O canudo, aliás, representa 4% do lixo plástico do mundo. Mas e os outros 96%? Mesmo sendo considerado um grande vilão pela imprensa, a principal função dessa “caça aos canudos” é servir como discussão para o uso do plástico além dos canudos, especialmente por representar um item dispensável no consumo diário.

As vantagens do plástico

Por outro lado, o plástico não é somente um vilão. Não é à toa que ele está em todo lugar… É um material versátil e poderoso, que consegue ser ao mesmo tempo leve e maleável, e durável e resistente. Ele pode assumir infinitas formas, cores e tem um ótimo desempenho para o design. E por isso o plástico está em todos os lugares, da sola de sapato à lente de contato, nos celulares, guardando o nosso remédio, guardando a comida na geladeira, e na própria geladeira.

Porém, a pouca atenção dada à composição química em termos de reciclabilidade e ao design dos produtos feitos a partir de plástico, o relativo baixo custo e o mau gerenciamento da cadeia têm levado a poluição generalizada desse material, que agora atinge praticamente todas as partes do planeta. E para rever isso, é urgente pensar em melhores soluções para que esse material não esteja espalhado nos lugares errados.

Entretanto, apenas a proibição dos canudos de plástico não resolve a situação – e, como já mencionamos, pode gerar consequências indesejadas. É preciso desenvolver alternativas viáveis e disseminar ainda mais a ideia de que o uso dos produtos descartáveis de plástico é prejudicial tanto ao meio ambiente quanto ao próprio ser humano. E isso não é feito sem políticas públicas, ações educativas e mudanças na produção industrial, na engenharia química e novos modelos de negócios que garantam a circularidade dos plásticos.

Alternativas para a proibição de canudos de plástico

O mercado produz alternativas à proibição de canudos plásticos

Já existem algumas alternativas para resolver o problema causado pela proibição de canudos de plástico descartáveis, embora ainda faltem incentivos governamentais para essas opções se tornarem as principais fontes de consumo do produto canudo.

Uma opção, por exemplo, é o uso de canudos biodegradáveis, de papel, bambu ou outros materiais. Nesse sentido, vale mencionar o projeto  o de uma adolescente de Campinas que criou um canudo feito de inhame. Maria Pennachin, de 16 anos, desenvolveu o biocanudo no laboratório de seu colégio e a ideia inclusive com que a jovem participe em setembro de 2019 de uma feira internacional em Abu Dhabi, capital dos Emirados Árabes Unidos.

Há também uma alternativa que vem da Espanha. Lá, uma startup criou um canudo biodegradável, reciclável e comestível. O material é feito de açúcar, gelatina e amido de milho.  Chamados de Sorbos, os canudos podem ter sabores diferentes como limão, morango e chocolate, prometendo não alterar o gosto da bebida.

Quem pensou em uma opção biodegradável e descartável no oriente foi um grupo de Taiwan. Lá, a proibição de canudos plásticos será feita agora em 2019. Por isso, o 100% plants, um canudo feito inteiramente de fibra vegetal que se decompõe em aterros em poucos meses e não prejudica o meio ambiente, mesmo que acabe no mar, surgiu como  uma possibilidade. A empresa já atende em larga escala, inclusive companhias aéreas e grandes centros comerciais de lá.

Canudos reutilizáveis

Mas não podemos deixar de citar os canudos reutilizáveis, como os de vidro ou de aço inox. Eles podem ser oferecidos por estabelecimentos, ou levados na bolsa pelos próprios consumidores que têm o hábito de tomar bebidas dessa forma.    

Nas soluções reutilizáveis, o canudo pode ser lavado e usado milhares de vezes. É o caso do produto de aço inox, por exemplo, já que ele dificilmente enferruja, além de ser reciclável, fácil de limpar, ter maior resistência física quando comparado ao aço comum e ser estável em temperaturas extremas. Aqui no Brasil aliás existem empresas como a curitibana Begreen onde é possível encomendar o produto tanto para uso pessoal, como para empresas ou restaurantes. Alguns estabelecimentos já enxergam o canudo de metal como um talher, algo que pode sim ser reutilizado após a lavagem.

Porém, independente da alternativa, é importante reforçar que apenas a troca de canudos plásticos descartáveis por outros tipos não chega a resolver a atual e crescente poluição de plásticos. É preciso se atentar para o que a Fundação Ellen MacArthur chamou de “a nova economia do plástico”. A iniciativa requer uma colaboração entre todos os segmentos da indústria, governos e organizações da sociedade civil. Tudo para modificar a maneira como se trabalha esse material.

Economia circular do plástico

A ideia é repensar o que se refere ao plástico alinhando com os princípios da economia circular, para criar uma noção compartilhada do que fazer em relação ao plástico, inovando e levando o consumo do material para um patamar que vise tanto uma estabilidade econômica quanto melhores resultados ambientais. Ou seja, uma economia circular do plástico.

Para atingir esse objetivo, é necessário que empresas de bens de consumo, assim como os produtores e fabricantes de embalagens plásticas, modifiquem urgentemente sua atuação, já que são os responsáveis pelo o que é colocado no mercado de embalagens. As embalagens plásticas, aliás, respondem por 26% do volume total de plásticos utilizados no mundo. A infraestrutura pós-uso do plástico também precisa ser revista, sendo necessário incluir a responsabilidade empresarial pelo que se produz, assim como estimular a inovação com embalagens que não gerem poluição ao serem descartadas. Pelo contrário, elas devem ser pensadas para seguir alimentando o ciclo técnico ou biológico.

E os formuladores de políticas públicas podem estimular toda uma adequação do mercado para um uso consciente e inovador do plástico. Para isso, é importante ir além da proibição, estimulando o desenvolvimento de novas alternativas a partir critérios claros que gerem uma melhoria efetiva. Precisamos do design circular e do fomento à inovação em escala global para que essa economia circular do plástico seja possível.

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