O circular é feminino

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O circular é feminino. Você já pensou sobre isso?

Em novembro do ano passado eu provoquei um certo frisson na abertura do Fórum de Economia Circular das Américas, no Chile. Porque terminei minha apresentação com algumas observações sobre a relação (metafórica) entre a economia circular e o feminino.

Eu resolvi falar sobre isso na véspera – quando fui “convidada” a compor a plenária de abertura. Escrevo entre aspas porque na verdade fui eu que me convidei. Porque até então eram três palestrantes – os três homens, os três brancos. Dois ingleses e um norte-americano.

 

Por que eu me convidei para falar entre os homens

Eu me convidei porque fiquei com vergonha da plenária de abertura do Fórum de Economia Circular das Américas não ter nenhum convidado da América Latina, e não ter nenhuma convidada mulher. E eu, por sorte, sou essas duas coisas.

Vale dizer, antes de mais nada, que eu fiquei bem em dúvida se deveria escrever publicamente sobre isso de forma tão sincera. Porque não tenho intenção de expor a organização do evento. Lá, durante o Fórum, eu não expus, não “reclamei” – não em público, pelo menos. Tentei trazer essa questão na minha fala de uma forma mais teórica, mais positiva – e acredito que mais elegante.

Mas hoje é 8 de março – o Dia Internacional das Mulheres – e me deu vontade de contar essa história assim, abertamente. Pelo menos aqui no blog da Ideia Circular, que é um espaço “meu”: uma iniciativa essencialmente feminina, que eu ajudei a construir.

É claro que o 8 de março é só um dia, dos 365 que temos a cada ano para fazer as transformações necessárias neste mundo. Mas é também um momento de visibilidade que mulheres de todo o mundo têm optado por usar para falar do quanto já foi conquistado, e do quanto ainda falta conquistar. E como aqui a gente fala sobre economia circular, nada mais justo do que pensar o que uma coisa pode ter a ver com a outra…

Por isso venho compartilhar a parte da minha apresentação em que trouxe essa provocação: o circular é feminino. Mas aqui com esse contexto da circunstância da minha participação nessa plenária de abertura.

De qualquer forma, a intenção não é reclamar, não é acusar nem constranger, mas mostrar. Porque acredito que essas coisas precisam ser mostradas, precisam sim ser expostas. Para poderem ser discutidas, para poderem ser transformadas.

o circular é feminino - dois doces redondos lembrando seios
imagem: Annie Spratt para Unsplash

Não foi de propósito!

Eles – da organização – não fizeram de propósito. Não decidiram intencionalmente fazer uma mesa só de homens brancos do hemisfério norte. A intenção era fazer uma plenária “high profile” para a abertura. E, naturalmente, os especialistas “high profile” são os homens brancos do hemisfério norte.

Eles não fizeram de propósito, e esse é justamente o problema. Porque essas coisas têm que ser feitas de propósito, com propósito. Com intencionalidade.

E a intencionalidade pra mim, by the way, é justamente uma das transformações mais bonitas desse novo paradigma da economia circular. Que efeito a gente quer ter no mundo? Como transformar a intenção da nossa indústria, dos nossos sistemas produtivos?

Design é intenção… e o design circular que nós promovemos parte justamente dessa ideia – mas esse é outro assunto.  

Como eu ia contando, acabei me convidando para compor a plenária de abertura na véspera do evento. Também não tinha planejado isso – não foi de propósito!

Aconteceu de me avisarem, no dia que eu cheguei em Santiago para o Fórum, que havia sido preciso mudar o painel em que estava programada minha contribuição, para acomodar outro palestrante convidado. Outro convidado “high profile“, diga-se de passagem, membro do governo do Chile.

E era esperado que eu concordasse graciosamente em acomodar essa necessidade, e preparasse minha apresentação para outro painel, com outro tema, na véspera do evento.

 

Minhas especialidades

Mas acontece que, entre todos os outros painéis, o tema da plenária de abertura – “Os desafios de definir ‘Economia Circular’” – era a minha especialidade. Quer dizer: tenho estudado apaixonadamente esse assunto pelos últimos 10 anos.

Além disso, co-fundei, junto com a Léa Gejer, esta que é a primeira iniciativa brasileira dedicada a comunicar ideias circulares, de uma forma adaptada ao(s) nosso(s) contexto(s). 

E, por acaso, minha última pesquisa foi justamente uma revisão sistemática de literatura sobre as definições, origens e princípios atribuídos à economia circular.

E acontece que eu também sou mulher, e latino-americana, e já tinha reparado nessa composição infeliz da plenária de abertura. Infeliz não pelas presenças, que fique claro! Porque os palestrantes são realmente de alto nível, homens com trajetórias admiráveis em organizações pioneiras e influentes.

Mas infeliz pelas ausências. De outros pontos de vista, de outras vozes. Ausência de uma voz latino-americana, de uma voz negra, de uma voz nativa (mapuche?), e, sim, de uma voz feminina.  

E essas vozes precisam ser convidadas. Precisam ser ouvidas. E precisam ser celebradas. Ou seja, a diversidade precisa ser intencional. Diversity by design.

E já estamos em um ponto de evolução em que pega mal, pega muito mal, reproduzir esse tipo de homogeneidade de representação. Principalmente em um evento de discussão entre pessoas que se propõem a transformar a forma como organizamos nossas sociedades. 

Isso tudo para explicar por que eu me convidei para participar da plenária de abertura do Fórum de Economia Circular das Américas, e porque resolvi falar sobre isso lá.

como definir economia circular? abertura do Fórum de Economia Circular das Américas
Ken Alston, Kevin de Cuba, Carla Tennenbaum, Ken Webster e Mark Dorfman na abertura do Fórum de Economia Circular das Américas – CEFA 2018

Lugar de fala

É claro que eu quase não dormi na véspera, pensando no que queria dizer.
Porque eu tinha pedido aquele espaço, então precisava escolher como ocupá-lo.

Senti que minha contribuição precisava passar por esses lugares de fala, por essas minhas “especialidades”, como a única mulher e a única latino-americana ali. 

Então foquei a maior parte da minha apresentação no desafio de “tropicalizar” a economia circular – desafio que nós conhecemos bem, desde que criamos a Ideia Circular para comunicar essa ideia de uma forma que faça sentido no Brasil.

E deixei pra dizer que o circular é feminino no finalzinho… no trecho que quis trazer hoje aqui.

Vale dizer que minha apresentação foi muito bem recebida. Como eu mencionei, essa parte final causou um certo frisson na platéia – mas um frisson positivo. Teve um momento – inesquecível – em que todas as mulheres me dirigiam um sorriso luminoso. Foi uma sensação muito boa. De que eu disse algo que precisava ser dito.

Então neste 8 de março resolvi dizer de novo. Desta vez aqui. E dizer um pouco mais – contar esta história por trás do discurso. Desta vez em português. Na minha língua, no meu espaço.

Deixo abaixo então o trecho da minha apresentação sobre o feminino. Ele não é uma transcrição literal do que eu falei lá, mas uma tradução dessa parte da minha fala original em inglês, acrescida de alguns esclarecimentos e adendos que achei relevantes para hoje.

Espero que faça sentido, ainda que fora do contexto do restante da apresentação. E que contribua para aprofundar o debate – tanto sobre economia circular, quanto sobre a valorização do feminino. E como um pode fortalecer o outro, e fortalecer outros esforços necessários de transformação.

 

Marielle Presente!

Por fim, pra terminar esta parte já extensa do meu relato, preciso fazer esta homenagem.

Porque eu comecei a escrever no dia 8 de março, inspirada pelo dia das mulheres. Mas acontece que também estamos a dias do 14 de março – aniversário da execução infame da Marielle Franco.

Marielle era mulher negra, homossexual, periférica, e ousou reivindicar seu espaço de representação na política brasileira. Me sinto até um pouco constrangida em contar esta minha história, que teve um final tão mais feliz que a dela. Quer dizer, que a parte da história que se encerrou com a morte dela. Porque hoje mesmo foram presos novos suspeitos do crime – e essa história claramente está longe de terminar.

Então fica este PS importante: enquanto na abertura do CEFA eu pude falar como mulher latino-americana, aqui, no Brasil, preciso especificar o meu lugar de fala como mulher branca (e judia, mas isso aqui vem menos ao caso). Isso quer dizer que as minhas histórias tendem a terminar melhor neste país. Que as portas se abrem, se não facilmente, com menos resistência. Ou com uma resistência menos violenta do que para minhas irmãs negras, indígenas, periféricas.

E por tudo isso acredito que os esforços de transformação não podem mais ser segmentados: “ambiental”, “social”, “econômico”. No Brasil, não dá para promover uma economia circular que não contemple questões sociais e culturais. A luta por um futuro circular é também a luta pela prosperidade, dignidade e justiça para tod@s.

Carla Tennenbaum no Fórum de Economia Circular das Américas
Carla Tennenbaum no Fórum de Economia Circular das Américas – foto de Marcos Perez

Economia circular como metáfora

(trecho final da minha apresentação na plenária sobre “os desafios de definir economia circular”)

“[…] Eu acredito que a ideia de uma economia circular vem se mostrando tão poderosa porque ela é uma metáfora muito forte.

Quando eu estava pesquisando as definições de economia circular, e por que é tão difícil chegar a um consenso, minha colega Regina Magalhães indicou o trabalho da Deirdre McCloskey, que é uma economista norte-americana que em 1983 escreveu “A Retórica da Economia”(como Donald McCloskey). O texto traz reflexões muito interessantes sobre o papel das metáforas na teoria econômica. Em especial, pra mim, ideia de que “a tradução de uma metáfora importante nunca termina”. Porque ela nunca deixa de nos surpreender com implicações inéditas.

Então é importante que a gente tente definir a economia circular, mas essa é só a ponta do iceberg. A economia circular é um termo, uma imagem que estamos criando juntos para uma transformação que é necessária para a nossa sobrevivência.

E originalmente ela fala de como os seres humanos lidam com os materiais, com os recursos da Terra. Como circular valor, ao invés de desperdiçá-lo. Mas nós também podemos nos surpreender com outras implicações interessantes e poderosas quando exploramos a metáfora circular em outros níveis.

E eu quero explorar um desses níveis com vocês hoje. Porque eu sou a única mulher nesta plenária, e porque esse é uma provocação necessária aqui na América Latina, que tem uma  história e uma realidade ainda tão presente de sexismo e de opressão do feminino.

Eu acredito que uma parte importante, que ainda está faltando nos esforços de decodificar a metáfora da economia circular, envolve a circularidade como um princípio feminino.

 

O linear é masculino

Podemos começar percebendo que a economia linear é uma economia masculina –  literalmente e metaforicamente.

Literalmente, porque ela foi criada por homens. Até pouco tempo atrás, eram só  homens dirigindo governos e empresas. Nós trabalhávamos em casa, cuidando da casa e das crianças. Só muito recentemente passamos a atuar aqui também, tomando algumas decisões do mundo produtivo. Então literalmente, historicamente, a economia linear foi criada por homens, através das ações e decisões de homens.

Mas a economia linear também é masculina porque nossa lógica produtiva é masculina. Ela parte de um modo de pensar linear que, sob o risco de parecer generalista, eu chamaria de masculino. Vejam bem que não estou dizendo que é o modo de pensar dos homens, nem de todos os homens – o que seria, realmente, generalizar. Mas é um modo de pensar masculino, que vem da porção masculina presente em todos nós, homens e mulheres.

Como caracterizar esse pensamento? Bem, digamos que é um modo de pensar “direto e reto”. Quantitativo, racional, especializado. Que busca o sucesso, o alto impacto, o domínio. E que tende a ser competitivo, combativo e, no limite, destrutivo.  

Não é que esse pensamento esteja errado, ou precise acabar. Pelo contrário: ele é útil e ajudou a impulsionar diversas conquistas – sejam científicas, econômicas ou tecnológicas. Mas a sua prevalência absoluta contribuiu para o estado de destruição e crise ambiental, econômica e social em que nos encontramos.

Se estamos buscando alternativas, e nos lançando ao desafio de construir outras imagens de futuro – essa que estamos chamando de economia circular, por exemplo… Então é preciso antes de tudo questionar a lógica que criou o problema, entender as suas sombras e os seus limites. E investigar outros modos de perceber e atuar no mundo.  

 

O circular é feminino

Metaforicamente, o circular é feminino. Não só na simbologia, que é clara. Ora, o símbolo do masculino é um falo ereto, reto. Já os símbolos do feminino são circulares, curvilíneos: seios, mamilos, uma barriga gestante.

Além disso, a maior parte das mulheres tem uma conexão com processos cíclicos que, por exemplo, transformam seu estado físico e emocional a cada momento do mês. Sobre esse assunto, recomendo a palestra de Mónica Guerra da Rocha no TEDxUnirio, de setembro do ano passado. É um depoimento inspirador, que transforma essa que é percebida como uma fraqueza ou vulnerabilidade feminina em um poder primordial. E que, como ela mesma expressa, tem tudo a ver com o reconhecimento e valorização do circular sobre o linear.

 
Mas indo além dos símbolos.

A maior parte das caracterizações da economia circular fala de regeneração, de cuidado com o lugar que habitamos. Mas o cuidado, na nossa cultura, é uma função considerada feminina. E, como a maioria das funções femininas, ela é desvalorizada, culturalmente e financeiramente.

Os homens dirigem o mundo, tomam as decisões, geram valor financeiro às custas de um modelo destrutivo de extração. E nós ficamos em casa, cuidando. Ou ocupando as profissões associadas ao cuidado, de pessoas ou lugares. Ou seja: babás, professoras, enfermeiras, cuidadoras, faxineiras, empregadas domésticas, cozinheiras, arrumadeiras.

 

E agora?

Como se transforma isso? Não é só promover mulheres a posições de poder.

Ainda que seja importante – muito importante – ter mulheres nesses espaços. Falando em eventos como este. E que a sua contribuição seja valorizada tanto quanto a dos homens.

Esse é um grande desafio que nós – minha sócia e eu – temos enfrentado no Brasil. E a maioria das mulheres na platéia está sorrindo pra mim agora… Então imagino que seja um desafio aqui ou nos seus países também.

Mas não é só sobre as mulheres – é sobre o feminino. E todos nós, homens e mulheres, carregamos traços masculinos e femininos – ainda que culturalmente os homens sejam ensinados a reprimir o seu feminino.

Então, metaforicamente, a saída não é só valorizar as mulheres ou trazê-las a posições de poder dentro de um mundo masculino, mas valorizar o pensamento feminino em todos nós: homens e mulheres.  E o que eu chamo de pensamento feminino aqui é essa sabedoria não-linear, intuitiva, e sistêmica. Também é esse impulso regenerativo de cuidado, que precisa ir além da esfera doméstica, para nortear os homens e mulheres que tomam decisões políticas ou produtivas que afetam a nossa coletividade.

mãos de um casal sobre a barriga grávida da mulher
imagem: Kaylee Garret para Unsplash

Cuidando da casa

Porque tanto a economia quanto a ecologia têm essa raiz ‘eco’, do grego oikos, que significa ‘casa’. Mas depende de como você define a casa. Afinal, este planeta é a nossa casa comum. E todos nós precisamos aprender a cuidar dela. Especialmente os muitos homens, e as poucas mulheres, em posições de poder.

Ou seja: precisamos cuidar da nossa casa, deixar a casa em ordem para nossas crianças.

E, como um problema não se resolve a partir do mesmo pensamento que o criou, é recomendável sair da lógica linear, extrativa, competitiva, que eu estou chamando de masculina, e que criou a economia linear e a crise de recursos que estamos vivendo.

Precisamos buscar soluções a partir dessa sabedoria sistêmica, compassiva e regenerativa.

Que é feminina, e é circular.

Obrigada!”

Carla Tennenbaum

PS: Para ler outro relato que escrevi sobre essa plenária de abertura, com pequenos vídeos legendados da fala de cada palestrante, veja o post Os desafios de definir economia circular.

Para conhecer melhor nossa abordagem sobre a economia circular, ficar sabendo dos nossos conteúdos abertos e outras notícias e discussões que só compartilhamos por e-mail, deixe seu contato aqui.

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3 comentários

  1. Carla excelente texto ,muito feliz em saber a mulher que vc se tornou, mas sempre soube que seria uma profissional voltada para o social, infelizmente fiz 2 inscrições e não consegui participar da live idéia circular, essa vida corrida, mas aguardo uma próxima oportunidade.

    Marielle presente hoje e sempre!

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