Economia circular e o mundo depois do Covid-19

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Foto: Edwin Hooper | Via: Unsplash

Nesse momento de isolamento social inédito, a crise causada pelo Covid-19 tem sido uma experiência essencialmente de medo, angústia e ansiedade… Ainda não conhecemos a dimensão do estrago que a epidemia vai causar nas nossas vidas e na sociedade.

É inegável que ainda vamos atravessa grandes perdas humanitárias e uma recessão global gigantesca, o que torna bastante delicado tratar sobre esse assunto. Não sabemos o quanto os sistemas de saúde e econômico do país estão preparados, o que deixa muitos de nós inseguros, seja com relação à nossa própria saúde e dos nossos familiares, ou ao sustento básico que pode estar sendo ameaçado nos próximos meses. ​

Por outro lado, para quem, como a gente, vem trabalhando nessa perspectiva de mudança sistêmica dos modelos produtivos, não dá para não refletir sobre o que ainda está por vir. Essa suspensão global inédita do nosso modo de viver habitual é uma oportunidade para que a humanidade redefina seus valores e se planeje para os próximos desafios.

​Para além de nos fechar em nossas casas, o Covid-19 está gerando uma quarentena para o nosso modo de viver e consumir. Os rastros desses novos hábitos que estamos tendo que adotar vão perdurar pra muito depois do fim dos bloqueios do vírus. E isso vai resultar em mudanças extremas na nossa a cultura e a economia.

Na última semana, enviamos um email para os nossos leitores, perguntando como as pessoas têm se sentido, o que têm feito ou pensado sobre o presente e o futuro. Com as respostas que tivemos, passamos por uma semana de bastante reflexão, e os resultados seguem no texto abaixo.

Também queremos convidar você para conversar mais sobre isso! A nossa co-fundadora Léa Gejer vai fazer uma aula aberta no dia 14/04 (terça-feira) às 17hs , onde vai falar de sua percepção de como ideia de uma economia circular, em suas diferentes escalas e áreas de atuação, pode contribuir para a construção de um futuro mais positivo. Para se inscrever na aula gratuita, clique aqui .

O Covid-19 e os tempos “normais anormais”

“Nós temos sido obrigados a repensar, e muito, o consumo como é hoje. Com a reclusão, a gente se dá conta que não precisa de metade das coisas que temos. Percebemos também o volume de lixo gerado por semana, a quantidade de roupas que não precisamos, de tarefas pouco importantes para o trabalho, e por aí vai.” (Cintia Junca)

Covid-19 | Via: Unsplash

A gente vive tempos “anormais” muito antes do coronavirus. A forma como temos lidado com o meio ambiente para manter a nossa indústria e o nosso modo de vida não tem nada de normal – e tem alcançado consequências de dimensões inéditas. 

Temos visto, por exemplo, a Amazônia sendo cada vez mais destruída, os rios, mares e ar cada vez mais poluídos. Temos enfrentado a escassez iminente de recursos finitos, e as ameaças de mudanças climáticas imprevisíveis.

Também temos lidado com diferenças sociais cada vez mais agudas entre pessoas e entre sociedades. E temos trabalhado muito mais do que gostaríamos para o pouco tempo de descanso, lazer e prazer.

E de repente, uma pandemia acaba com a nossa rotina e com as normas daquilo que sempre pensamos que era o normal. Mas se você parar pra pensar, a própria pandemia do coronavírus, e a magnitude dos seus impactos,  também foram causados por escolhas e comportamentos do nosso “normal” tão “anormal”…

De onde vem?

“A globalização é em princípio uma coisa boa, nós os portugueses sabemos bem o que isto significa, uma vez que há 5 séculos iniciamos o processo…No entanto é bom lembrar que alí no Alfeite, fazíamos as quarentenas de todos os marinheiros que regressavam do novo mundo, período este que era realmente de 40 dias….Esquecemos deste pequeno  mas importante pormenor…Hoje as viagens transcontinentais são realizadas através de avião e não de caravelas, a velocidade de transmissão atual de um vírus é a jato…” (Josival Barreto)

Foto: Martin Sanchez Via: unsplash

Não se sabe ao certo como o Covid-19 se originou, mas vírus bastante semelhantes foram encontrados em morcegos-ferradura chineses. A doença provavelmente passou das comunidades de morcegos – animais muitas vezes intocados pelos humanos – para se espalhar por todo o planeta.

O que é certo é que a gente tem aumentando o transporte e comércio de animais, seja para produzir remédios, tê-los como animais de estimação ou consumi-los como alimentos. Também estamos destruindo habitats em paisagens cada vez mais dominadas por humanos. Como nunca havia acontecido antes, diferentes tipos de animais estão se misturando uns com os outros (incluindo seres humanos) de maneiras estranhas aos ecossistemas naturais.

E isso desencadeia o que os cientistas chamam de “spillover”, que em português pode ser traduzido como “transbordamento”. O termo é usado no contexto da ecologia para dizer que um vírus ou micróbio conseguiu se adaptar e migrar de uma espécie de hospedeiro para outra. E foi o que ocorreu com o agente infeccioso causador da Covid-19.

Esses transbordamentos de animais selvagens ocorreram historicamente, mas, em sociedades mais antigas, uma pessoa que era infectada provavelmente morreria ou se recuperaria antes de entrar em contato com um grande número de outros indivíduos. Mesmo que se espalhasse, como já aconteceu com a gripe espanhola em 1918, não atingia todos os continentes. 

Nos dias atuais, casos raros do “transbordamento zoonótico” podem se transformar em problemas globais em semanas. Com o transporte motorizado e aéreo, você pode estar em uma floresta no centro da África hoje, em Lisboa no dia seguinte e em São Paulo no dia posterior. A repercussão do transbordamento é ampliada porque há muitos de nós e estamos fortemente conectados.

E o Covid-19 não é uma surpresa entre cientistas. Para o Professor Andrew Cunningham, da Sociedade de Zoologia de Londres, há dezenas de milhares de vírus, que podem ser “transbordados”, esperando para serem descobertos. Kate Jones, professora e pesquisadora de Ecologia e Biodiversidade na University College London, ressalta ainda que a chance de mais transbordamentos em seres humanos acontecer é maior porque estamos cada vez mais degradando habitats e paisagens naturais.
Os danos ao planeta podem ser ainda mais rápidos do que os que nos têm sido alertado sobre mudanças climáticas, que são graduais e geracionais. Para Jones, se destruir habitats é a causa, restaurá-los é a solução.

Não dá mais (ou ponto de inflexão)

Acredito que o vírus seja mesmo uma maneira sutil e poderosa da natureza para que a sociedade construa melhores alicerces.” (Fernanda Lopes)

“Quem estuda as questões da crise ecológica sabia que uma hora viria… e pelo menos estamos tendo a chance de pausar e reestruturar tudo.” (Julia Webber)

Foto: Gabriela Biló | Via: Estadão

Entender as causas da pandemia é essencial pra refletir que ela é resultado de atividades humanas, e do nosso comportamento com relação à natureza.

Não dá mais pra gente transformar florestas em pastos sem entender o impacto que isso tem no clima ou nos serviços ecossistêmicos. Não dá mais pra fechar os olhos para como essa forma exploratória e linear tem gerado a perda de capacidade de armazenamento de carbono, o que leva ao aquecimento da temperatura global, aumenta riscos de inundações e incêndios, além de possibilidades de emergir outras doenças. Não podemos mais agir dessa forma, sem pensar nos serviços essenciais que esses ecossistemas fornecem para nós – e que podem parar de fornecer, se continuarem a ser explorados para além da sua capacidade de regeneração. 

Para a escritora Eliane Brum, o que estamos vendo com a pandemia é “o efeito concentrado do que a crise climática está produzindo de forma muito mais lenta“. A pandemia expõe de forma aguda a vulnerabilidade dos nossos sistemas, e também demonstra que, assim como na experiência que estamos passando, chegaremos num ponto de inflexão com relação à transformação do clima e, por consequência do planeta. E aqui, não haverá mais volta, nem vacina.

Solidariedade

“Todos os dias ainda vejo centenas de pessoas construindo uma corrente de bem e solidariedade, o que está sendo lindo de presenciar.” (Fernanda Lopes)

“Acredito que a expansão da cultura regenerativa para todos os lugares seria viável através de uma rede de colaboração.” (Sandra Martelli Takahashi)

Foto: Lina Trochez| Via: Unsplash

Yuval Noah Harari, historiador e filósofo, ressalta em texto para o The Financial Times que as escolhas que faremos agora vão moldar o nosso futuro – no curto e longo prazo. Além dos desafios do presente, é um momento ideal para pensar coletivamente em possibilidades para um futuro melhor.

A holandesa Li Edelkoort, considerada uma das analistas de tendência mais influentes no mundo, afirma que o vírus terá, além do impacto econômico, um impacto cultural, que será essencial para a construção de um mundo e sociedade profundamente diferentes. De forma bastante otimista, ela afirma que podemos – e devemos – usar esse momento para recomeçar com novas regras e regulamentos. Isso permite, por exemplo, que os países e regiões voltem a conhecer e trabalhar suas qualidades específicas, promovendo uma economia de escala mais local, saudável e circular.

Nesse sentido, um número de soluções coletivas e solidárias têm aparecido em vários âmbitos da sociedade. Redes de solidariedade têm surgido nos mais diversos lugares do mundo – e inclusive no Brasil, apoiando aqueles que estão mais vulneráveis e precisam de ajuda imediatamente.

Essa mobilização inédita de recursos e participação cívica demonstra ser possível aquilo que antes parecia muito difícil: uma escalada de colaboração com tamanho compatível ao que seria necessário para dar resposta às mudanças climáticas. 

Mas, apesar desse movimento evidenciar que temos capacidade de nos guiar para um caminho de cooperação, precisamos ficar atentos. É necessário confiar na ciência, que deve ser o guia para as autoridades públicas tomarem suas decisões. Aquelas autoridades que argumentam que você simplesmente não pode confiar no conhecimento científico para fazer a coisa certa tendem a ser levadas pelo caminho do autoritarismo, dogmatismo ou xenofobia. 

Dois caminhos

“Temos uma agenda Global que está repetida vezes batendo à nossa porta, é a hora, é a chance da conscientização, de entendermos que vivemos em uma única casa e que precisamos trabalhar com união para a regeneração do planeta, caso contrário, sucumbiremos todos!” (Claudia Gonçalves)

“Não temos mais como continuar nesse modelo atual de economia e de viver nossas rotinas.  Precisamos mudar e/ou fazer mais, como pessoas, empresas, comunidades e sociedades! Senão, realmente não haverá futuro ou será muito limitado.” (Simone Venancio)

Foto: Rod Long| Via: Unsplash

 “Sim, a tempestade passará, a humanidade sobreviverá, a maioria de nós ainda estará viva – mas habitaremos um mundo diferente.” (Yuval Noah Harari)

O planeta e a sociedade vão ser diferentes num futuro próximo. Mas ainda não sabemos ‘como’ vão ser diferentes – porque isso vai depender dos caminhos que escolhermos traçar a partir de agora. Nesse sentido, temos duas possibilidades. A primeira é tentarmos retornar ao sistema anterior, o “business as usual”. Vamos continuar produzindo em sistemas industriais lineares, que garantem o mesmo modo de consumo que já não se sustentava. Vamos continuar trabalhando como habitualmente, com os mesmos esforços confusos e insuficientes para reduzir ou mitigar os efeitos da crise econômico-social-ambiental. 

Vamos continuar desmatando, extraindo e poluindo, só que as diferenças entre ricos e pobres (pessoas e países) serão mais acirradas, nossos salários serão menores e teremos piores condições de trabalho e qualidade de vida.
Ou… 

Podemos ir por um caminho em que rompemos com o modo linear de exploração-produção-consumo-descarte para criar economias, indústrias e cidades mais saudáveis, mais inteligentes e circulares, que promovam a regeneração de ecossistemas e comunidades. 

Restaurar habitats

“Enxergo um futuro em que vivemos de maneira mais respeitosa com nós mesmos e com as  outras pessoas, e entendemos que somos parte da natureza.” (Renata Oliveira)

Foto: Timothy Dykes | Via: Unsplash

Por que não usar nossa inteligência e potência criativa para restaurar habitats, ao invés de destruí-los? Como aflorar a nossa natureza cooperativa no compromisso de criar condições favoráveis à vida e à solidariedade global? Temos que entender o que não queremos mais do nosso modo habitual de vida e padrão de consumo, para então redesenhar os nossos efeitos no planeta.

É hora de olhar para a natureza como inspiração essencial para a nossa criatividade. Ela é resiliente e regenerativa. E nós também podemos ser. 
Apesar dos efeitos difíceis para a economia no curto prazo, essa desaceleração produtiva, impensável poucos meses atrás, precisa ser aproveitada em todo o seu potencial disruptivo. É hora de repensar como queremos usar nosso tempo, nossos recursos e nossa capacidade de criação. Repensar, por exemplo, como as indústrias vão voltar a funcionar, como e quais produtos serão fabricados a partir de agora. Planejar os produtos e materiais para o que vem depois, e refletir sobre suas propriedades de saúde e circularidade. Tê-los realmente como nutrientes.

É hora de se planejar para tomar as medidas necessárias nas comunidades, bairros e regiões para se tornarem melhores, mais saudáveis e igualitários. E co-criar cidades mais circulares, que serão abastecidas com sistemas de energia renovável e saneamento universal. Vamos também desenhar sistemas para alimentar a nossa população com mais respeito com a nossa terra, água e ar.

Economia circular e o amanhã

“a economia circular tem uma proposta que particularmente acho muito alinhada com as leis universais, de que estamos sempre em um movimento cíclico de doação e recebimento.” (Fernanda Lopes)

“Ao meu ver a Economia Circular se apresenta não só como alternativa mas como condutora deste processo.” (Gaspar Barusso)

Foto: Aaron Ledesma | Via: Unsplash

A economia circular e o Cradle to Cradle podem ser ferramentas importantes para a transição dos nossos sistemas. É uma nova forma de pensar o nosso futuro e como nos relacionamos com o planeta, dissociando o crescimento econômico e o bem-estar humano do consumo crescente de novos recursos.

Esse modelo se inspira no funcionamento da natureza e propõe uma nova organização social e econômica, com a capacidade de iluminar o desafio de transformação dos modelos atuais de desenvolvimento industrial e econômico. É uma ideia mobilizadora, que sinaliza a possibilidade de interações benéficas entre os seres humanos e o planeta, em uma visão positiva de futuro.

Pra gente chegar lá, podemos começar usando a nossa imaginação. Como você quer que seja o nosso amanhã? 

Vamos conversar sobre isso na aula aberta com a nossa co-fundadora Léa Gejer no dia 14/04 às 17h , onde vai falar de sua percepção de como ideia de uma economia circular, em suas diferentes escalas e áreas de atuação, pode contribuir para a construção de um futuro mais positivo.

Clique aqui e se inscreva na aula gratuita 

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