Economia Circular nas Américas – entrevista para a PEC

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Carla e Léa falam sobre Economia Circular nas Américas

Oportunidades e desafios da economia circular no contexto dos países emergentes das Américas
Por: Claudia Lorena García*

Entrevista concedida por Carla e Léa para a Plataforma de Economia Circular das Américas (PEC) feita por Claudia Lorena Garcia.  Leia também a entrevista original sobre Economia Circular nas Américas em inglês e em espanhol no site da PEC.
 
Claudia:

No dia 30 de maio, tive a oportunidade de entrevistar duas mulheres brasileiras muito inspiradoras, que têm feito um trabalho incrível no campo da Economia Circular nas Américas, especificamente no contexto brasileiro. Nesta entrevista, Carla Tennenbaum e Léa Gejer, co-fundadoras da Ideia Circular, parceira-chave da Plataforma da Economia Circular das Américas, nos falam sobre sua experiência na transição para uma Economia Circular. Eles compartilharam conosco informações valiosas sobre as oportunidades oferecidas pela economia circular e os desafios que devemos superar para torná-la realidade nas Américas.

 

1. Falem um pouco sobre a experiência de vocês no campo da Economia Circular nas Américas:

Carla:

Eu comecei a pesquisar  sobre lixo com 12 anos de idade, em 1992. Antes da Eco 92 no Rio, estudamos questões ecológicas na aula de Ciências, e meu grupo pesquisou sobre resíduos sólidos. Então eu fui ao Rio pro encontro, com outras crianças, pra representar nossa escola. Desde cedo, eu me interessei por essas questões. Eu queria entender o mundo,  por que as coisas são como são, e como a gente pode mudar o que precisa ser mudado.

Em 1995, fui pra United World College, no Novo México, nos Estados Unidos, onde tive o privilégio de estudar com centenas de outros jovens de mais de 70 países. Lá, eu fui exposta a muitas informações novas. Sobre o meio ambiente e também sobre muitas questões sociais e políticas que eu não tinha ideia de que existiam. Quando voltei ao Brasil, estudei História na Universidade de São Paulo. E lá aprendi a analisar diferentes narrativas e ideias de como organizamos nossas sociedades em diferentes momentos.

Ainda que nunca tenha trabalhado como historiadora, acho que essa abordagem contribuiu pro meu interesse pela Economia Circular, como uma nova visão de como podemos organizar nossa sociedade.

“Acho que essa abordagem contribuiu pro meu interesse pela Economia Circular, como uma nova visão de como podemos organizar nossa sociedade”

Enquanto estava na faculdade, também estudei design por 2 anos com os irmãos Campana, dois designers brasileiros famosos, e co-fundei um coletivo chamado NotechDesign, que tinha uma abordagem experimental muito divertida de criação a partir da exploração de materiais e objetos. E comecei minha própria pesquisa artística com resíduos de EVA: um material colorido que gera muito lixo, que usei como ponto de partida para o desenvolvimento de produtos de alto valor. Essa foi minha formação empírica em design: pesquisei como desenvolver os sistemas que poderiam transformar o EVA, e como criar cadeias produtivas que se complementam e mantém o valor desse material fluindo, sem gerar desperdício.

Ao longo desse processo, pesquisei muito sobre ecodesign e sustentabilidade, e foi quando me deparei com o conceito de design Cradle to Cradle, que foi muito importante pra mim, porque mudou a maneira como eu via o design e o desperdício em um sentido mais profundo. Também aí a Economia Circular começou a emergir como um conceito, e isso realmente me fascinou. Então eu venho pesquisando essas questões há mais de 10 anos. Já trabalhei com vários grupos de pessoas – empresas, cooperativas de artesãos, adolescentes, idosos – em processos criativos, facilitando o desenvolvimento ou otimização de produtos a partir dessa lógica.

“A gente criou a Ideia Circular como uma plataforma pra discutir e também investigar como “tropicalizar” essas ideias”

Em 2014, a Léa e eu descobrimos que nós duas estávamos pesquisando a metodologia  Cradle to Cradle e o design circular, numa época em que ninguém no Brasil estava falando sobre isso… Então começamos a trabalhar juntas pra promover essa abordagem por aqui. Depois de um ano, a gente percebeu que era cedo demais pras empresas adotarem isso sem uma divulgação maior desses conceitos, então a gente criou a Ideia Circular como uma plataforma pra discutir e também investigar como “tropicalizar” essas ideias, e como elas poderiam ser aplicadas pra inspirar projetos circulares no Brasil. Temos feito isso nos últimos 5 anos e vimos que o interesse pela economia circular está começando a florescer agora.

Acima de tudo, a gente quer contribuir pra tornar a Economia Circular no Brasil uma realidade. E é pra isso que trabalhamos na Ideia Circular. Trazemos muitos exemplos inspiradores e discutimos os conceitos com mais profundidade. Também temos um programa de treinamento on-line chamado Economia Circular na Prática. Pensamos muito sobre como organizar esse conhecimento a partir dos princípios e critérios que a gente usa , que são inspirados pela metodologia Cradle to Cradle, e como as pessoas poderiam colocar isso em prática nos seus projetos. Tem sido muito inspirador trabalhar de perto com profissionais tão motivados de todo o país!

Léa:

Eu me formei em Arquitetura e Urbanismo. Depois de me formar, comecei a trabalhar em um escritório de arquitetura convencional aqui no Brasil. E não fiquei muito satisfeita com este trabalho… Então me demiti e decidi fazer um Mestrado em Gestão Ambiental Urbana na Holanda. Lá me concentrei em como aplicar a sustentabilidade na construção. Aprendi sobre o design Cradle to Cradle. Minha tese de mestrado foi sobre a aplicação dessa metodologia no setor de construção. Voltei pro Brasil depois disso, e quis aplicar todo esse conhecimento no meu trabalho. Mas não consegui encontrar nenhum escritório de arquitetura ou planejamento urbano que trabalhasse com o fechamento de ciclos de materiais, energia e água. Então eu abri meu próprio escritório, chamado FLOCK, e comecei a aplicar o design circular nos meus projetos.

Um dos primeiros trabalhos que fiz foi em uma oficina em Araripe. Araripe é uma região de Pernambuco de onde vem 97% do gipsita consumido no Brasil. Michael Braungart, um dos criadores do Cradle to Cradle, foi convidado pra este workshop pra ajudar a criar uma economia circular na indústria do gesso, e eu estava lá trabalhando com ele. Ele gostou muito do meu portfólio e me convidou para representar o EPEA no meu escritório da FLOCK. Então comecei a trabalhar com ele e a entender como toda a indústria estava trabalhando (ou não) em direção a uma economia circular aqui no Brasil.

A essa altura conheci a Carla, então mantive a FLOCK, que é o meu escritório de arquitetura, e também lançamos a Ideia Circular, diante de todas as dificuldades mencionadas por Carla, como a falta de conhecimento e compreensão sobre a Economia Circular e o design Cradle to Cradle.

 

Léa fala sobre casa circular
Léa em palestra durante o Festival Path

Pela Flock eu fiz um projeto muito legal aqui em São Paulo, que a gente considera  a primeira Casa Circular do Brasil. É uma casa pequena, mas foi projetada como um banco de materiais. A gente sabe tudo o que colocou dentro da casa. De onde vêm os materiais, pra onde eles podem seguir depois, e também trabalhamos pra fechar os ciclos da água e energia. Foi uma experiência muito interessante porque ajudou a gente a entender de uma forma prática como funciona toda a cadeia produtiva da construção civil aqui no Brasil.

Junto com isso, Carla e eu temos trabalhado muito na Ideia Circular pra entender como a economia circular pode ser aplicada no cenário brasileiro, e quem está fazendo o quê – porque tem muitos projetos incríveis aqui no Brasil e na América do Sul. Tem sido muito gratificante conectar todos esses projetos e pessoas.  No ano passado, por exemplo, eu fui curadora na área de economia circular do Festival Path, o maior festival de inovação brasileiro, e tive a oportunidade de reunir pesquisadorxs e stakeholders pra discutir os desafios no quadro da economia circular. Como resultado de todo esse trabalho duro, recebi um prêmio Highly-Commended (menção honrosa) no  The Circulars 2019.

Carla:

Este ano, a gente também foi convidada pra participar do júri de dois prêmios novos de economia circular: a Léa faz parte do grupo de jurados e mentores do Solve Challenge do MIT, que tem uma edição de economia circular este ano, e eu faço parte do júri do Ocean Plastic Innovation Challenge da National Geographic.

2. Para vocês, o que é a Economia Circular e por que as Américas deveriam fazer a transição para esse paradigma?

Carla:

No CEFA 2018 eu ouvi algumas pessoas descreverem a economia circular como uma estratégia, mas, pra mim, é um pouco diferente.
Eu acredito que a Economia Circular é uma imagem… uma imagem-guia, que mostra como a indústria e a economia podem – e, na verdade, precisam – funcionar se a gente quer garantir um futuro bom pros nossos filhos e filhas.

É a visão de um sistema industrial e econômico que é projetado pra ser regenerativo e eliminar o conceito de lixo, mantendo os recursos em circulação com o maior valor possível em ciclos biológicos e técnicos. E eu acho que as Américas deveriam fazer essa transição porque é o único caminho a seguir… Eu não ouço ninguém propondo algo tão inspirador como a economia circular. A gente acredita, a Léa e eu, que essa transição não só é possível, mas ela é necessária. E os governos, empresas, pessoas e países que compreendem e investem intencionalmente nessa transformação estão assumindo a liderança em direção a um futuro de abundância, e não  de escassez.

Eu também acho que nas Américas nós temos uma história de funcionamento em um sistema muito linear. Porque fomos colônias, temos isso na base da nossa história: todos os materiais eram extraídos e o seu valor levado pra outro lugar. É assim que a nossa agricultura e também nossa indústria começaram, e assim continuam funcionando em muitos países hoje em dia, baseadas na extração e exportação de matérias-primas e commodities. Então acho que o desafio pra gente é inverter essa lógica,  pensar em como podemos realmente regenerar nossos sistemas e manter o valor em circulação.

 “É a visão de um sistema industrial e econômico que é projetado pra ser regenerativo e eliminar o conceito de lixo”

Antes, o movimento de sustentabilidade focava só em minimizar ou compensar os danos… Acho que é a primeira vez que temos uma visão positiva do que queremos ser, e isso é muito importante pra nós, enquanto sociedade, ter essa imagem pra nos guiar. Mas eu não acho que isso seja uma estratégia, mesmo porque não  existe ainda um consenso de quais seriam exatamente os princípios ou metodologias. Estamos construindo esse movimento juntos, e acho que existem estratégias diferentes que podem ser usadas, mas o mais importante é ter isso como uma imagem norteadora de onde queremos ir.

Léa:

Eu acredito que a economia circular é outra maneira de viver com nossos recursos, com nossa economia, pra alcançar o bem-estar humano. É uma ferramenta que dá a oportunidade da gente superar toda essa crise que estamos enfrentando. E acredito que não apenas as Américas, mas o mundo inteiro deve fazer a transição pra esse paradigma, e usar essa ferramenta pra superar esses desafios. Como a Carla disse, não é só uma ideia bonita, é uma necessidade que a gente precisa encarar.

 “A economia circular é outra maneira de viver com nossos recursos, com nossa economia, pra alcançar o bem-estar humano.”

3. Considerando a formação de vocês em design:  

A. Quão importante é o design para alcançar uma economia circular?

Léa:

Bom, pra mim, o design é o passo mais importante pra uma economia circular. A gente pode falar sobre um edifício, um telefone ou uma jaqueta. O jeito de pensar é o mesmo. A gente tem que redesenhar as coisas pra que elas permaneçam de forma contínua na economia, na sua melhor qualidade. Então essa ideia de gerenciamento de resíduos, reciclagem e minimização de danos é muito importante. Mas são atividades de transição pra uma Economia Circular. Quando a gente pensa em um edifício ou um telefone como um banco de materiais, estamos trabalhando com intenções. Pra gente poder determinar para as nossas coisas, materiais positivos, ideias positivas. Assim a gente pode projetar os seus usos em ciclos contínuos, “do berço ao berço”, e é assim que eu acredito que a gente pode trabalhar pra criar um futuro positivo.

“o design é o passo mais importante pra uma economia circular”

Carla fala sobre design em palestra
Carla fala sobre design em palestra
Carla:

Para mim, o design é tudo – e a gente trabalha com uma visão mais ampla do design. Especialmente no Brasil, onde design é uma palavra estrangeira. As pessoas entendem isso como a forma de um edifício ou de um carro, mas a gente gosta de trabalhar com a ideia do design como intenção. Em inglês, quando se diz que estamos fazendo algo por design (by design), e não por acaso (by chance), isso tem a ver com intencionalidade, e eu acredito que a intencionalidade tem um papel muito importante na economia circular. Nesse caso, a ideia é criar sistemas que são regenerativos por design, e isso significa que eles são intencionalmente regenerativos.

“A gente precisa do design pra criar sistemas circulares de alta qualidade”

Então não estamos falando só do design de produtos, mas também do design de processos e modelos de negócios. É sobre ser intencional, sobre onde queremos chegar – como indivíduos, como empresas e como espécie: pra onde queremos ir? Tudo isso, para mim, tem a ver com o design, com a intenção. Mesmo se a gente considerar só a materialidade, quer dizer, o design de produtos, componentes ou materiais, a ideia é pensar o que acontece com tudo isso depois do primeiro ciclo de uso.

É onde o sucesso de qualquer economia circular é determinado. E como disse a Léa, isso precisa ser considerado na fase do design. No momento em que a gente está concebendo um produto. E não como uma tentativa posterior de tentar descobrir o que fazer com este ou aquele resíduo em particular. Por isso a gente precisa do design pra criar sistemas circulares de alta qualidade. E eu acho que o design traz essa interface entre ciência e arte: existem aspectos técnicos, mas também a arte – num sentido mais amplo, de como a gente pode ser criativa e intencional nas nossas indústrias.

B. Atualmente, as empresas das Américas estão projetando para uma economia circular?

Léa:

Eu posso falar mais sobre o Brasil, onde trabalho com diferentes empresas e pessoas. E aqui já existem algumas empresas que trabalham na direção da Economia Circular. Existem empresas pequenas e grandes que estão projetando novos materiais, pros ciclos biológicos, ou até mesmo usam resíduos da indústria pra produzir materiais positivos pro ciclo técnico.

Temos também startups que estão criando ferramentas inovadoras pra rastrear materiais por toda a cadeia de valor. E algumas grandes empresas estão repensando o seu modo de lidar com os recursos. Então eu estou muito otimista. Eu acredito que este é o momento em que essas ideias estão florescendo, e elas estão tomando uma escala maior com boas conseqüências no futuro.

Carla:

Em geral, eu acho que não, as empresas ainda não estão desenhando pra uma Economia Circular nas Américas. Mas, como a Léa disse, existem muitos projetos inspiradores e inovadores. Temos muito progresso aqui no Brasil em algumas cadeias produtivas que são boas pra essa criação de valor. Especificamente pro ciclo biológico, na agricultura, na pesquisa de bioplásticos e substitutos para os plásticos. Mas acho que estamos muito atrasados ​​em um aspecto crucial, que é a saúde dos materiais. Porque a gente vem da perspectiva Cradle to Cradle, isso é muito importante na nossa abordagem sobre Economia Circular: não  é só projetar os materiais pra que sejam reciclados, mas também para serem saudáveis e seguros, para as pessoas e o planeta.

“As empresas ainda não estão desenhando pra uma economia circular. Mas, como a Léa disse, existem muitos projetos inspiradores e inovadores”

Nesse sentido, estamos muito atrasados. Por exemplo, temos substâncias permitidas no Brasil que foram proibidas na Europa há muitos anos, especialmente na agricultura, como pesticidas. Existem projetos de leis que tornariam isso ainda pior. E nosso atual governo federal não é nem um pouco progressista ou visionário nesse aspecto. Então ainda que a gente já tenha muitos  exemplos inspiradores, também tem muito chão pela frente.

E ainda sobre a saúde dos materiais: nos nossos cursos e treinamentos a gente sempre gosta de falar sobre a necessidade de redefinir as pessoas entendem como qualidade de um produto. Porque agora parece que você pode ter um produto bom, mas que tem alguns defeitos ou efeitos colaterais – como causar alergia ou irritação na pele, ou então virar lixo depois da primeira vez que é usado. Mas não dá pra considerar um bom produto se ele faz mal pra saúde humana ou da biosfera. Então eu acho que as empresas precisam redefinir esse padrão de qualidade! E, como a Léa disse, as pessoas estão pedindo por bons produtos. Isso significa bom em todos os sentidos: bom pras pessoas, bom pro meio ambiente, e que mantenha o valor dos recursos circulando.

 

C. Quais são as oportunidades para empresas e empreendedores projetarem bens e serviços para uma economia circular?

Léa:

“Os consumidores estão pedindo bons materiais e bons produtos”

Do meu ponto de vista, a oportunidade mais importante é que os consumidores estão pedindo bons materiais e bons produtos. A gente não está falando sobre o governo porque não dá pra esperar nada dele neste momento. Não é sobre regras, não é sobre renda, muito mais que isso, é sobre pessoas. As pessoas estão pedindo bons produtos e estão se perguntando o que vai acontecer depois com o seu celular ou a sua casa, ou o que quer que usem. Eu acho que essa é a oportunidade mais importante aqui no Brasil.

Carla:

“Existe uma oportunidade enorme, porque tudo precisa ser redesenhado”

Eu acho que existe uma oportunidade enorme, porque tudo precisa ser redesenhado. Se pensarmos que tudo foi projetado pra uma economia linear, e estamos tentando fazer essa mudança, tudo precisa ser redesenhado levando em conta os princípios da Economia Circular. Então temos oportunidades infinitas de inovação, e essa é a inovação necessária, que é intencional, não só essa ideia de inovação como tendência, pra estimular o consumo. Acredito que esta é a maior oportunidade que já tivemos de redesenhar intencionalmente toda a nossa indústria.

D. As empresas e o governo investem em inovação no Brasil?

Carla:

Acho que ainda não estamos no melhor lugar para a inovação. Os brasileiros têm um espírito criativo e inovador e eu acho que muitos empreendedores, especialmente os menores, estão muito interessados ​​em inovar. E estão fazendo isso contra todas as probabilidades, mas não temos políticas públicas que realmente apoiam a inovação. A legislação geralmente é punitiva para os poluidores. E mesmo assim não costuma ser aplicada. Na verdade a gente não tem muitos mecanismos pra apoiar esse tipo de inovação pra pequenas e grandes empresas. Acreditamos que muitas empresas querem fazer isso. Mas muitas vezes não têm recursos pra inovar de uma forma profunda ou significativa.

“Não temos políticas públicas que realmente apoiam a inovação”

Léa:

Concordo que as pessoas têm uma mente inovadora e que faltam incentivos do governo para a inovação, mas também acredito que as empresas em geral têm medo de liderar essa mudança… Muitas vezes, quando tentamos “vender” a ideia de economia circular nas empresas, a resposta é “tem mais alguém fazendo isso?”, “Vamos ser os primeiros?” “O que acontece se não funcionar?” Às vezes, ainda temos esse modo de pensar que surgiu ainda no Brasil colônia, em que ninguém quer ser o primeiro, preferem imitar países mais desenvolvidos do que inovar. Eu falo principalmente de grandes empresas, que estão muito preocupadas com seus rendimentos imediatos e são mais conservadoras. Por outro lado, também sei que existem muitas inovações em pequenas empresas e iniciativas locais.

“Acredito que as empresas em geral têm medo de liderar essa mudança…”

4. Quais são as barreiras potenciais para uma economia circular nas empresas?

Léa:

Bom, nós já falamos sobre legislação e regulamentos, acho que eles ainda não favorecem uma Economia Circular nas Américas. No Brasil, se você quiser reciclar uma garrafa de plástico, vai pagar imposto como se estivesse extraindo matérias-primas virgens. O que acontece é que você paga impostos duas vezes, quando extrai materiais e depois quando recicla. Esta é uma grande barreira que a gente tem precisa superar. Outra coisa que eu acho que é muito particular para a América do Sul, e provavelmente para o hemisfério sul, é que as atividades informais estão muito presentes nas nossas economias. Enfrentamos vários desafios quando estávamos construindo a casa (Casa Circular) porque tínhamos que trabalhar com trabalhadores informais. Porque é assim que se faz na construção civil.

“As atividades informais estão muito presentes nas nossas economias”

Além disso, existem alguns materiais sobre os quais ainda não sabemos muitas informações. Por exemplo, do que são feitos os nossos materiais construtivos, os telhados, forros, paredes, pisos, etc. No Brasil, também temos o cenário político que é muito ruim do ponto de vista ambiental. A questão é como podemos avançar quando todo o ambiente político está retrocedendo nessas questões. Tem sido difícil pra gente entender o que esperar nos próximos anos a esse respeito.

 
Carla:

Eu concordo com o que Léa disse. Eu também adicionaria algo do que eu estava dizendo antes, sobre a nossa história. Nas Américas, em geral, temos esse legado do colonialismo, que vem com um pensamento predatório, de explorar a terra e também de explorar pessoas para o trabalho. E mesmo no presente nós continuamos com este pensamento. E no cenário político que a Léa mencionou,  isso é levado ao extremo. Porque antes os governantes pelo menos fingiam estarem preocupados com o meio ambiente. Mas agora? Nós temos um grupo de políticos no poder que sequer fingem: eles acham que preservar é ruim porque prejudica o ‘progresso’. Então querem que os proprietários de terras possam desmatar sem consequências jurídicas, e querem expandir a exploração da Amazônia, por exemplo, o que é um motivo de preocupação pro mundo todo, já que agravaria ainda mais a crise climática.

“Não vamos conseguir ter um futuro de prosperidade se não cuidarmos dos nossos recursos”

Em geral, acho que essa mentalidade colonizada é um grande problema. Porque todas as nossas riquezas costumavam ir para outro lugar. Para as metrópoles colonizadoras, e mais tarde, quando nos tornamos independentes e industrializados, continuamos com essa lógica. Nossa economia ainda é muito baseada na extração de matérias-primas e na sua exportação, ao invés de se beneficiar delas. Como, por exemplo, com o café, soja, carne, minerais: o melhor vai embora. Eu me pergunto como a gente pode desafiar esse tipo de pensamento, de explorar a terra e fazer as pessoas trabalharem por menos do que o salário mínimo que nem cobre as despesas básicas de vida.

Acredito que a nossa economia ainda está baseada nessa mentalidade colonial. E essa é uma grande barreira, uma barreira específica das Américas e outras ex-colônias. Como a Léa mencionou, também existem desafios em termos de legislação, que precisam ser superados. E no Brasil o clima político está tão intenso e polarizado, com tantas discussões que são muito urgentes, que as pessoas não parecem dar tanta importância pros problemas ambientais: a direita, a esquerda, todo mundo parece achar que essa é uma questão secundária, pra ser discutida depois. Então, estamos discutindo a previdência e as políticas econômicas para o futuro. Mas as pessoas não percebem que não vamos conseguir ter um futuro de prosperidade se não cuidarmos dos nossos recursos.

5. Como podemos facilitar a economia circular nas Américas?

Palestra Carla e Léa
Palestra de Carla e Léa sobre economia circular
Carla:

Eu acho que tem algumas coisas que a gente já mencionou. A parte da legislação seria importante, mas como Léa disse, não temos muita esperança a curto prazo. Mas mesmo que o governo federal não esteja tão interessado nisso, existem outras formas de facilitar a Economia Circular. Foi pra isso que a gente fundou a Ideia Circular. Pra sensibilizar tanto as empresas e produtores quanto os usuários e consumidores sobre a Economia Circular. Ajudar as pessoas a entenderem o que elas devem perguntar sobre os produtos que usam. E também mostrar como elas podem se engajar nessa transformação.

“Pra sensibilizar tanto as empresas e produtores quanto os usuários e consumidores sobre a Economia Circular”

Léa:

Aqui no Brasil, por exemplo, a gente vê os catadores e reconhece como eles são uma parte importante da economia circular. E eles também precisam ter consciência de que são parte importante da economia circular. Assim como a indústria deve projetar materiais melhores pra facilitar seu trabalho. Eu acho que na América Latina, tem essa questão de um quadro de desigualdade. Que, ao mesmo tempo que é um grande ônus, deve ser explorado como uma oportunidade pra convidar todos a participarem dessa transição e melhorar esse quadro.

“Convidar todos a participarem dessa transição e melhorar esse quadro”

Carla:

Pra elaborar o que Léa disse, não é que nós temos que educar os catadores sobre a economia circular, mas eles podem educar a gente, e eles podem educar as empresas sobre o valor dos materiais – porque eles têm trabalhado de perto com isso, com o que é desperdiçado, e eles sabem muito bem que tipo de lixo pode ser reciclado, e que lixo não pode ser reciclado. Catadores são especialistas em materiais, a gente precisa considerar as contribuições deles nesse movimento.

“Catadores são especialistas em materiais, a gente precisa considerar as contribuições deles nesse movimento”

Léa:

Sim, e acredito que quando incluímos todas as pessoas, nos tornamos mais fortes em todos os sentidos.

Carla:

“Projetar as coisas desde o começo ajuda muito”

E quando a gente fala de logística reversa, também volta aos problemas do design. Porque se os produtos, componentes ou materiais não forem projetados para serem reutilizados, reciclados ou consertados, é quase impossível ter uma logística reversa efetiva, porque não é viável economicamente pras empresas. Projetar as coisas desde o começo ajuda muito na responsabilidade estendida e na logística reversa.

*Claudia Lorena García é consultora independente em inovação e economia circular. Atualmente lidera alguns projetos no âmbito do programa de Economias Circulares do Fundação para o Desenvolvimento Sustentável das Américas (ASDF). Ela é engenheira química e conta com mestrado em Gestão da Inovação pela Universidade de Bath, Reino Unido. Sua tese de Mestrado analisou os desafios e oportunidades para fazer a transição para economias circulares em países nas Américas.

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