Biossistema Integrado: solução circular para esgotos (entrevista com Valmir Fachini do OIA)

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Biossistema Integrado
Fonte: O Instituto Ambiental

Valmir Fachini é co-fundador do O Instituto Ambiental (OIA), uma ONG brasileira que desenvolve o chamado Biossistema Integrado, uma tecnologia regenerativa e acessível de saneamento que purifica a água, recicla nutrientes e gera energia renovável. O Instituto trabalha há mais de 30 anos com a pesquisa e difusão desses sistemas, que já beneficiaram mais de meio milhão de pessoas em diversas comunidades no Brasil, Haiti, Nicarágua e Espanha.

O Biossistema Integrado é uma solução circular para o tratamento da água residual urbana: começando no biodigestor, a matéria orgânica do esgoto é consumida por bactérias que produzem o biogás, que pode ser usado como gás de cozinha na própria comunidade. O material orgânico que sobra é muito rico em nutrientes e segue junto com o efluente por uma série de filtros com plantas, algas e peixes que purificam a água.

Como resultado, esse sistema gera água limpa, biogás e também alimento para a comunidade, além de fertilizante composto orgânico para a agricultura e regeneração do solo. 

“Eu consigo ouvir das pessoas quando visito o sistema… Elas olham, veem aquilo tudo funcionando e dizem  ‘Poxa, mas que perfeito! Limpa a água, pode reutilizar toda a água outra vez, recicla nutriente, volta a produzir alimento (…) E esse ciclo continua funcionando para sempre! E quanto mais coisas a gente incorpora nesses ciclos, melhor a produção, melhor a qualidade do solo’” (Valmir Fachini)

Biossistema Integrado
Fonte: O Instituto Ambiental

O Biossistema Integrado pode ser implementado em pequena escala, com sistemas locais, domiciliares ou comunitários, atendendo bairros isolados ou sem saneamento. Mas também podem ser implementados em grande escala, substituindo ou adaptando as estações convencionais de tratamento de esgoto, que, ironicamente, de acordo com a Agência Pública, é onde ocorre a maior contaminação das águas, que é causada por “subprodutos da desinfecção”. Isso acontece quando o cloro, usado para remover microorganismos, reage com algas, matéria orgânica ou agrotóxicos vindos da agricultura ou indústria, gerando subprodutos que acabam trazendo riscos químicos para a população.  

Em países como o Brasil, onde a cobertura das redes de esgotamento sanitário é de apenas 54%, alternativas de tratamentos locais para esses efluentes são de grande relevância.  Nesse contexto, o trabalho do OIA democratiza o acesso ao saneamento básico de qualidade, sendo uma solução ambiental e também social. O sistema é de baixo custo, e fácil implementação e manutenção, fornecendo a oportunidade de comunidades de baixa renda tratarem localmente seus efluentes domésticos, além de contribuir para a circulação e renovação dos fluxos naturais e evitar problemas ambientais causados pelo sistema convencional de esgoto, como a eutrofização dos corpos d’água.

Abaixo você confere a entrevista da nossa fundadora Léa Gejer com o Valmir Fachini, para entender um pouco mais sobre a história, funcionamento e custos do Biossistema Integrado – além de uma reflexão sobre a visão sistêmica e possibilidades de expansão desta solução circular.

A gente dividiu a entrevista com o Valmir em cinco partes:

1 – História e disseminação nas comunidades

Na primeira parte, o Valmir compartilha com a gente a trajetória do Instituto e seu trabalho com a instalação dos Biossistemas Integrados, começando em 1991 com a visita de um dos autores do Cradle to Cradle ao Brasil, o professor alemão Michael Braungart. Ele também conta um pouco sobre o projeto em Petrópolis na década de 1990, e como isso foi a porta de entrada para a expansão desses sistemas de tratamento locais e circulares no Brasil e no mundo.

 

“Eu acredito que hoje a gente deva estar chegando a meio milhão de pessoas com saneamento ambiental feito através de Biossistemas Integrados, considerando que uma única estação em Araruama, que era uma estação convencional, foi convertida em Biossistema Integrado. E essa estação atende duzentas mil pessoas. É o maior projeto de Biossistema Integrado aqui na América Latina

 

“Depois deles verem a apresentação, o presidente da companhia disse: ‘puxa a gente tava buscando na França, na Alemanha soluções… E vocês estão com a solução aqui!”

 

“Esse conhecimento, qualquer pessoa que observa a natureza no dia a dia e que esteja buscando melhorar a qualidade do solo, a qualidade do cultivo, a qualidade ambiental, de vida delas mesmo, ela vai aprender”

2 – Como funciona

Na segunda parte, o Valmir detalha o processo de tratamento da água e nutrientes que acontece nas instalações do Biossistema Integrado. Ele explica as etapas do sistema, dos biodigestores aos tanques de tratamento, produzindo água limpa, biogás e composto orgânico para agricultura local.

 

“A OMS diz que (…) pra cada real ou dólar investido em saneamento, se economiza de três a quatro na outra ponta, na saúde”

 

“A primeira etapa é a separação de sólidos em pequena ou larga escala. Em seguida é a concentração de lodo em um só ponto, que pode ser em um biodigestor ou em um outro sistema como uma lagoa de estabilização de tratamento anaeróbio. Então, o lodo fica nessa lagoa e depois passa para os outros sistemas”

 

“O biogás pode ser utilizado diretamente em qualquer coisa que se necessite mais de biogás na propriedade. Se for numa comunidade, pode se utilizar em equipamento comunitário, numa escola, creche. Se for produção industrial, vai utilizar na indústria para redução de consumo de energia”

3- Manutenção e custos

Na terceira parte conversamos sobre a manutenção dos Biossistemas Integrados implementados em locais como prefeitura, comunidades e residências. O Valmir fala sobre os custos do sistema em comparação às soluções convencionais de tratamento de efluentes.

Ele também conta sobre o caso da estação de Araruama, o maior Biossistema integrado da América Latina, que atende mais de 200.000 pessoas. A estação convencional foi convertida em Biossistema Integrado e é atualmente gerenciada pela companhia local de saneamento.

 

“Eles agregam valor tanto pela economia de energia que fazem, porque eles têm o sistema produzindo e reciclando nutrientes. Então, o custo operacional baixa muito. (…) Eles gastavam R$ 1,90 por metro cúbico, quase 2 reais por metro cúbico para reciclagem de nutrientes com químicos e hoje eles gastam 25 centavos por metro cúbico com a reciclagem de nutrientes, feita com planta aquática emergente e flutuante.”

4 – Visão sistêmica

No quarto vídeo, o Valmir comenta sobre como o Biossistema Integrado traz uma mudança de visão e conceito, nos fazendo entender que trabalhamos junto à natureza. Ele fala também sobre o poder da educação e como muitos estudantes visitaram os sistemas e se inspiraram a fazer diferente.

 

“Hoje eu vejo os Biossistemas como essa mudança maior de visão que a gente vai alcançando e isso hoje começa a entrar também nos agricultores. Porque a agricultura convencional é muito dura, ela destrói muito o ambiente e já os pequenos produtores, alguns grandes, começam a mudar também, começam a incorporar essa visão sistêmica na produção.”

 

“O que foi vendido pra gente pela Revolução Verde, que a gente controla a natureza e com isso a gente aumenta a produção de alimentos é um grande blefe. A gente aumenta a produção de alimentos para a indústria para aumentar o lucro das commodities e não para aumentar a qualidade de vida, alimentação saudável, solo fértil, garantia de sustentabilidade no tempo.” 

 

“Pra mim essa é uma das grandes mudanças que a gente tem nesse momento e que isso continue crescendo cada vez mais. Com isso, a gente vai ter uma juventude e adolescentes que vem nessa nova safra, percebendo que tem um outro jeito de produzir, que tem outro jeito pra melhorar de acordo com a economia circular.”

5 – Como expandir

Por fim, o Valmir comenta sobre as possibilidades de escalar essa tecnologia para o nível das grandes cidades.

 

“Se a gente quiser melhorar, a gente melhora tanto no ponto de vista privado como no ponto de vista público, mas principalmente o público, porque o público é para todos”

 

“Eu tenho um outro empresário no Rio de Janeiro que está pesquisando as ODSs e pra surpresa dele (…) os Biossistemas completam 13 ou 14 delas e ele falou que nenhuma das outras coisas estão conseguindo chegar a esse nível“

 

“Tem os condomínios ao redor e eu vi uma reportagem que alguém perguntou para o coordenador da estação se as pessoas tinham algum receio do funcionamento da estação ao redor do condomínio. E ele disse ‘não, de jeito nenhum, o pessoal tá feliz da vida aqui, porque a estação representa alguma coisa muito boa pra eles, o Biossistema que está aqui”


Transcrição da entrevista com Valmir Fachini (OIA)

Parte 1: História e disseminação nas comunidades

Léa: Oi Valmir, bom dia! Muito obrigado aí pela sua presença, a gente está muito feliz de receber você como um dos criadores, fundadores do OIA – O Instituto Ambiental. A gente quer aprender um pouco mais com você, com esse conhecimento dos sistemas biointegrados e também conhecer um pouco mais da história de como tudo isso foi construído. Então, em primeiro lugar, muito prazer e muito obrigada!

Valmir: Muito prazer, bom dia também e muito obrigado pelo convite, é um prazer poder compartilhar dessa experiência do OIA iniciando lá com a chegada do Braungart aqui no Brasil em 1991 para implantação do primeiro Biossistema Silva Jardim, então é um prazer poder falar com vocês.

Léa: Legal! Bom Valmir, acho que a gente podia começar contando um pouco da história do OIA, mas também você pode contar um pouco da sua história, quem é você, o que te levou pra tudo isso,  e aí talvez contar um pouquinho como que tudo isso aconteceu…

Valmir: Bom, eu tenho uma ligação com a terra. Eu sou filho de pequeno produtor agrícola, e depois fiz estudo de filosofia e teologia, seminário… quando saí do seminário, estudei direito (3 anos) e foi quando eu conheci os Biossistemas Integrados e aí eu larguei tudo e me concentrei em trabalhar com Biossistema Integrado. Isso foi a partir de 92. Até 1992 eu trabalhei mais na área social com áreas urbanas, periferias, especialmente em Petrópolis no Rio de Janeiro. E, em 1992, eu participei muito ativamente no fórum paralelo da ECO 92 no Rio de Janeiro. E aí foi um divisor de águas… então eu me enveredei muito mais pro lado ambiental, e coincidiu com a chegada do instituto ambiental de Hamburgo, o RUI no Brasil. Eles tinham implantado a estação Silva Jardim e tinha sido visitada pelos cientistas da ECO 92 e Silva Jardim e eles nos encontraram e propuseram em 1993 que a gente fizesse uma parceria com eles e eu fui convidado pra participar desse programa de replicação de Biossistemas Integrados a partir de 94. Então eu comecei em 93, visitei Silva Jardim em 93, visitei outros projetos ambientais em 1993. E, em 1994, em janeiro, iniciamos a implantação, replicação do primeiro projeto em Petrópolis, o Biossistema Integrado.

Léa: Conta um pouquinho então sobre esse projeto de Petrópolis, eu já vi… acho que já até apareceu na televisão né, queria saber como que foi com a comunidade, e também durante esses 30 anos, quais são os projetos que mais te chamam a atenção, que você gostaria de compartilhar com a gente?

Valmir: O Biossistema Integrado de Petrópolis foi em parceria com o município. Na época, a gestão de água e saneamento era feita por uma companhia municipal. Então, o grupo que liderava pelo HUI, Hamburger Umweltinstitut, que era Katia Hanssen e Douglas Mulhall, eles vieram para o Brasil, fizeram uma parceria com o SEOPs – serviço de educação e organização popular, uma ONG em Petrópolis, que atuava nas comunidades com quem eu tinha muita proximidade. A partir daí a gente implantou o Biossistema. Em 1995, ele foi ampliado com a participação dos chineses e o professor George Chan e uma equipe técnica chinesa estiveram no Brasil e implantamos um biodigestor com filtro acoplado à estação de reciclagem de nutrientes que tinha sido implantada em 94. 

A partir daí começou um processo de análise de tudo o que estava sendo feito ali. Se analisava a água, biossólido, lodo, planta, os vegetais de alimentação, os peixes que estavam na estação. E com isso começou haver uma mobilização maior tanto de órgãos técnicos, de outras prefeituras que vinham visitar, secretários de estado, de meio ambiente que visitavam. Então foi uma história que muita gente se interessava, e aí a gente se perdeu um pouco, porque a gente ficava apresentando projeto para muita gente e com isso ficava um pouco diluído, não chegava ao fim de realmente fazer replicações e implantar. E a gente começou a afunilar isso, criar critérios para quem nos demandasse, a gente observasse anteriormente para ver se havia interesse realmente ou se só era uma coisa propagandística, de ir lá fazer reunião no município, mobilizar a comunidade.Utilizar isso para outros objetivos né. 

E aí deu certo, com isso a gente conseguiu implantar Biossistemas em quase todas as regiões do Brasil. Acho que a única que a gente não tem é a região centro-oeste, mas tem outras organizações que fizeram na região centro-oeste. Nosso contato com Brasília na época através da fundação Banco do Brasil, que nos deu aquela premiação de os Biossistemas Integrados serem o exemplo de tecnologia social para implantação do prêmio de tecnologia social da Fundação Banco do Brasil. Isso foi na década de 2000, 2001, 2002 que teve esse processo de premiação.

E, a partir daí, isso chamou a atenção pra fora também. Então, nós recebemos visitas de espanhóis, alemães, nicaraguenses, cubanos que vieram ao Brasil conhecer os Biossistemas.E com isso nos convidaram depois para replicar nesses locais. Então hoje nós temos Biossistemas implantados na Espanha. Na Nicarágua, é uma quantidade enorme de Biossistemas. Aí focado mais na área agrícola e saneamento de áreas de fazenda de cafés, que queriam otimizar sua produção, queriam ter sua produção mais qualificada com as últimas ISOs que existiam lá no início do século, em 2003/2004. E com isso os Biossistemas caíram como uma luva para eles, porque atendiam quase todas as demandas que essas legislações exigiam.

Léa: Você tem ideia de quantas pessoas nas comunidades têm acesso ou qual é o maior Biossistema que você já fez e, no total, quantas pessoas são beneficiadas? Você tem uma ideia disso? de todo esse trabalho que vocês fizeram?

Valmir: Eu acredito que hoje a gente deva estar chegando a meio milhão de pessoas com saneamento ambiental feito através de Biossistemas Integrados. Considerando que uma única estação em Araruama, que era uma estação convencional, ela foi convertida em Biossistema integrado e essa estação atende a 200 mil pessoas. É o maior projeto de Biossistema integrado aqui na América Latina. São 10 hectares e utiliza um sistema de captação inicial que faz a separação, como todo sistema convencional faz. Depois, passa por grandes biodigestores. E em seguida, vai para as lagoas de oxigenação com planta aquática, tanto nas lagoas com planta aquática flutuante como com planta aquática emergente.Aí a gente separa a área flutuante da área emergente, que é a chamada zona de raízes. Tecnicamente tem uma diferença, macrófita flutuante é aquela que fica sobre a lâmina d’água e macrófitas emergentes são aquelas que se fixam no fundo e crescem dentro da água removendo principalmente fósforo. 

E muito interessante essa estação, porque eles fizeram o ciclo completo, isso depois que eu já tinha saído, já estava no exterior. Mas eles conseguiram fazer convênios. Primeiro, com associação de artesãos locais, que começaram a produzir artesanatos a partir da sombrinha chinesa, que é uma planta ornamental – que se usa como planta ornamental no Brasil- que tem a haste muito rígida, muito fibrosa. Só que eles não davam conta de usar porque são uns 6 hectares de cultivos. São em 3 áreas e em cada área funciona durante 15 dias. A planta cresce rapidamente, é podada. Inicialmente, era uma poda selecionada, só das maduras. Mas depois se entendeu que era melhor fazer uma poda drástica, porque o crescimento rápido e homogêneo das plantas remove mais fósforo da água do que se ficasse somente com a planta adulta. É normal, depois que a planta já é adulta ela remove menos, né. Por isso que tem toda essa questão de  que as florestas de pé não contribuem tanto, especialmente quem gosta de derrubar a floresta, usa muito esse argumento. 

No caso das zonas de raízes,  a poda drástica é a que realmente remove mais nutrientes e que capta mais carbono porque o crescimento é muito rápido. Então se faz isso a cada 15 dias em uma das áreas de zona de raízes. Isso está sendo feito através de um convênio com uma outra empresa, que faz compostagem desse material e utiliza no cultivo de florestas plantadas, para madeira comercial. Eles na última repórter que eu vi, eles estavam colhendo quase 300, 288 toneladas/mês e depois de convertido em composto, estava produzindo 80 toneladas/mês. Então 80 toneladas de composto orgânico, depois de processado. E aí todo mecanizado.

Então esse projeto de maior volume no Brasil. E aí os outros são projetos menores. Em Petrópolis, tem hoje entre 15 a 20 projetos implantados, porque depois que a companhia de água e saneamento de Petrópolis incorporou o projeto, ela passou a replicar novos projetos em outras comunidades. E aí ela replica em comunidades de duas mil, três mil famílias, que são comunidades afastadas entre as montanhas lá em Petrópolis e tornaria muito caro para transportar o esgoto para um sistema centralizado de tratamento. No início, eles eram contra o nosso projeto,…Nos viam como competidores, mesmo que pequeno, mas como competidores Depois houve um debate, em uma ocasião, e várias organizações presentes e a companhia de água estava presente também. 

Depois deles verem a apresentação, o presidente da companhia disse: “puxa, a gente tava buscando na França, Alemanhã soluções e vocês estão com a solução aqui, então a gente vai conhecer de perto e vamos fazer a parceria” E aí foi, e a gente transferiu o know-how para eles. Essa transferência de know-how sempre é uma questão um pouco questionada, porque tem muitas pessoas que não aceitam transferência, porque acham que isso acaba indo só para um lado comercial. Eu sempre vi por um outro ângulo, que esse know-how tem muito a ver com a natureza, é evidente que tem conhecimento nisso. Mas esse conhecimento, qualquer pessoa que observa a natureza no dia a dia e que esteja buscando melhorar a qualidade do solo, a qualidade do cultivo, a qualidade ambiental, de vida delas mesmo, ela vai aprender. Não depende de uma tecnologia que você só consegue acumular tecnicamente, dentro das universidades, dentro dos centros de pesquisa. 

Eu consigo ouvir das pessoas quando visito o sistema elas olham, vê aquilo tudo funcionando e dizem “poxa mas que perfeito! Limpa a água, pode reutilizar toda a água outra vez, recicla nutriente, volta a produzir alimento, serve pra gente e aí devolve de novo a excreta, o nosso resíduo, para o sistema de saneamento, biodigestor. E esse ciclo continua funcionando para sempre.” E quanto mais coisas a gente incorpora nesses ciclos, melhor a produção, melhor a qualidade do solo”. Eu ouço isso de pessoas muito simples, que nem tem o segundo grau, que tem o primeiro grau incompleto, e que conseguem captar essa abstração olhando para o sistema. Quando a gente olha para a natureza, isso está presente na natureza, em qualquer coisa na natureza, tanto o lado que destrói quanto esse lado que ajuda a recriar outra vez a melhorar o sistema como um todo.

Parte 2: Como funciona

Léa: Valmir, você poderia explicar de uma forma bem simples, pra quem não conhece os Biossistemas, como que eles funcionam, então, a partir da entrada do efluente como que é?

Valmir: Normalmente, a entrada de efluentes, se for domiciliar, a pessoa tem o controle disso já na origem, no vaso sanitário dela ou na produção animal, ela vai ter o controle para não ter sólidos que não sejam biodegradáveis. Já em sistemas comunitários se faz o gradeamento convencional, a primeira etapa é a separação de sólidos em pequena ou larga escala. Em seguida, é a concentração de lodo em um só ponto, que pode ser em um biodigestor ou em um outro sistema como uma lagoa de estabilização de tratamento anaeróbio,. Então o lodo fica nessa lagoa e depois passa para os outros sistemas.

A gente hoje não usa mais quase as lagoas. A gente usa um sistema mais compacto possível. Mesmo quando em comunidades, sistemas maiores com mais áreas de filtro e todas elas fechadas, porque o sistema com água, se a gente não tiver controle de mosquito, eles podem aumentar a produção. E aí não é bom. Nas lagoas com peixe, isso não acontece, porque o peixe é a melhor solução pra problemas de proliferação de mosquito, porque na verdade ele passa a ser um redutor de proliferação. Porque o mosquito põe os ovos no lago, na hora que se forma na água, os peixes vêm e se alimentam, então esses não voltam mais. Então vai diminuindo a população de mosquito na comunidade.

Depois da instalação do sistema fechado biodigestor, vem os filtros. Em áreas agrícolas, esses filtros já podem ser substituídos pela produção. Você pode utilizar para fazer fertirrigação de árvores frutíferas ou pode utilizar já numa fase mais limpa do efluente, quando o efluente já está com água totalmente cristalina pode utilizar para cultivo. Então você já tem uma água com menos de 100 coliformes por 100ml ou com ausência total de coliformes termotolerantes. E aí você pode utilizar essa água para cultivo de vegetais, qualquer vegetal. E pode fazer na forma de hidroponia. 

Então, são essas as etapas: primeiro separação, segundo trabalhar com lodo. E nessa produção, quando se trabalha com lodo, produz o biogás. E aí o biogás pode ser utilizado diretamente em qualquer coisa que se necessite de biogás na propriedade. Se for numa comunidade, pode utilizar em equipamento comunitário, numa escola, creche. Se for produção industrial, vai utilizar na indústria para redução de consumo de energia. E seguindo efluente, o efluente então vai utilizar ou reutilizar a água diretamente para cultivo ou pode utilizar para outras coisas. Mas, em geral, se utiliza para cultivo, especialmente para cultivo de plantas que a gente não consuma sem cozimento, isso pra evitar problemas na legislação. 

A legislação brasileira é muito controladora nesse sentido. O discurso é o da saúde, mas a gente sabe que a coisa não é bem assim. Quando a gente fez análises com várias organizações no Brasil – a gente teve análises feitas pela Sabesp, que ia de São Paulo pra lá fazer coleta. A gente teve análises feitas pela Embrapa, pela Universidade Rural, feitas pela Fiocruz. A Fiocruz, na época, agora se fala muito de cepa de bactéria por conta do coronavírus, novas cepas. Na época, eles queriam pesquisar se surgiam novas cepas de doenças pra poder se antecipar, né. Pra nós, o interesse na pesquisa era o resultado de como a estação estava funcionando, a performance da estação, como eles analisavam tudo, a gente tinha uma visão bem otimizada de como a estação estava funcionando.

Léa: Legal! Então quer dizer que o sistema como um todo, além de produzir água limpa, tratar a água dos efluentes, você tem um composto que pode ir pra horta e árvores frutíferas, você tem também o biogás, que gera energia, que você contou para o chuveiro, fogão e etc, e reduz também a questão da saúde por ter menos insetos né, reduz essa proliferação de insetos, por exemplo.

Valmir: Exato! A OMS (Organização Mundial de Saúde) diz que se a gente investe pra cada real ou dólar investido em saneamento, se economiza de três a quatro na outra ponta, na saúde. Isso só contribui de uma forma impressionante para os municípios. Uma pena que a gente no Brasil ainda tenha tanta área sem saneamento e ao mesmo tempo temos metade dos municípios brasileiros com menos de 12 mil habitantes por município, ou seja, não é um problema de área. Como os Biossistemas colocam esse problema de área, a metade dos municípios brasileiros não tem problema de área, porque tem muita área disponível.

Parte 3: Manutenção e Custos

Léa: Como que funciona a manutenção desses sistemas? Porque vocês vão lá, implantam, mas precisa ter (eu imagino) que precisa de uma manutenção, precisa ter as podas… como que funciona esse contato com a comunidade? Esses sistemas conseguem ser autônomos depois que vocês saem? porque pra perdurar por 30 anos imagino que precisa ter uma auto suficiência de conhecimento, de tecnologia… como que funciona esse contato com a comunidade?

Valmir: Eu vejo em três aspectos: tem um que são os Biossistemas domiciliares, onde o proprietário, seja de um domicílio, de uma casa, de um terreno agrícola ou de uma propriedade industrial, de uma pousada… Ele é que cuida. Então esse cuidado privado, ele faz, porque ele precisa do sistema funcionando. E ele enxerga o benefício direto que ele tem quando o sistema funciona. Tem biodigestores em Petrópolis há 20 anos funcionando e o morador utilizando há 20 anos. Tudo né, utilizando a água reciclada, utilizando o biogás. E aí fazendo muitos testes. Eles começam a fazer testes para ver o melhor uso. 

Então esse caso de Petrópolis que eu tô citando, testou primeiro o uso do biogás diretamente na cozinha. Depois testou o uso de biogás, queimando nesse queimador para aquecimento de água de banho. E somente fazendo a conversão que o queimador (eu nem sei como é que se chama o nome desse queimador de chuveiro a gás, a gás convencional convertido pra biogás). Aí percebeu que consumia muito biogás porque realmente consome muito. Então depois utilizou pra fazer aquecimento de água num recipiente de 100 litros e aí a água aquecida servia pro banho. E com isso teve uma economia de energia muito grande, não utilizando água aquecida no chuveiro elétrico pra banho. 

Já numa situação comunitária, tem projetos que funcionam bem, que alguém da comunidade, especialmente quando tem alguém ligado à área agrícola e ele faz a gestão da estação. Ele planta, cultiva. Ele mesmo colhe, comercializa. Então ali funciona. Quando isso não existe, fica uma coisa mais solta. Especialmente quando fica dependendo da associação que tem que, quando muda diretores da associação, aí às vezes fica “capenga”. Ou até em municípios, que é o município que gerencia. Se o município está em final de mandato, não está se ocupando muito do sistema, não é que o sistema deixa de funcionar, o sistema fica como se tivesse abandonado…do ponto de vista biológico é quando ele melhor está funcionando, porque quanto menos intervenção tiver, a natureza se recria e o efluente final ta saindo mais limpo, né. Só que pra comunidade, é como se tivesse abandonado, porque não tem ninguém dando aquela manutenção pra ter aquilo lá como um jardim. Um jardim bem cuidado, com as flores crescendo, tudo isso de forma ornamental. Então aí já, às vezes, complica um pouco. 

Nos grandes sistemas, eles são gerenciados pelas companhias de saneamento. Então tanto Petrópolis, todos os sistemas de Petrópolis têm a manutenção da companhia de saneamento. Essa estação grande de Araruama também de Silva Jardim onde começou os Biossistemas. Hoje também o sistema tradicional da cidade foi convertido em Biossistema Integrado, também pra toda a cidade. No início, o Biossistema Integrado implantado em 1991, foi pra uma comunidade chamada Cidade Nova, que era mais ou menos de mil habitantes. E hoje, o Biossistema Integrado da estação convencional que recebe todo o esgoto da cidade inteira, eu acredito que seja em torno de 30 mil habitantes, eu tenho que verificar. Então eles são gerenciados pelas companhias de saneamento e aí nenhum problema de gestão. Funciona normal e com essa vantagem de poder agregar valor. Eles agregam valor tanto pela economia de energia que fazem, porque eles têm o sistema produzindo e reciclando nutrientes, então o custo operacional baixa muito.

(N)esse sistema de Araruama, eles gastavam R$1,90 por metro cúbico, quase 2 reais por metro cúbico para reciclagem de nutrientes com químicos. E hoje eles gastam 25 centavos por metro cúbico com a reciclagem de nutrientes feita com planta aquática emergente e flutuante.

Léa: E o custo da implantação, você tem uma noção de quanto que sai por habitante, uma média por habitante? Ele é mais caro que o sistema convencional, assim para a implementação?

Valmir: Não. A implementação não é mais cara que o sistema convencional. O “senão” que é colocado quando a gente apresenta é porque ele precisa de mais área, quando é um sistema maior, quando é um sistema pra 100 mil pessoas, 200 mil pessoas ou mais, precisa de mais área. Um sistema pequeno está custando hoje em torno de 1000 reais o metro cúbico isso com os biodigestores, o gradeamento, com o biofiltro e com a zona de raízes, o sistema completo está nessa faixa de 200 dólares o metro cúbico pra implantação. Então ele está bem abaixo do nosso sistema convencional.

Parte 4: Visão sistêmica

Valmir: Na verdade, hoje eu vejo os Biossistemas como essa mudança maior de visão que a gente vai alcançando. E isso hoje começa a entrar também nos agricultores. Porque a agricultura convencional é muito dura. Ela destrói muito o ambiente, né. E já os pequenos produtores, alguns grandes, começam a mudar também, começam a incorporar essa visão sistêmica na produção. Então você já vê um pequeno produtor de soja aqui, que produz dez, doze hectares de soja, ele não toca mais no solo. Ao contrário de outros que produzem outras coisas e mecanizam todo ano e com isso a qualidade do solo vai piorando ano a ano.Vai se tornando um solo quase que rochoso. Então o solo é… cada vez tem que perfurar mais. Cada vez se faz um trabalho e perdendo solo fértil sempre porque quanto mais se faz escavação no solo pra poder cultivar, mais nutriente vai se perdendo com a erosão natural quando não tem cobertura vegetal. 

Então os pequenos produtores já estão fazendo essa cobertura. Parece que isso já acontece também com várias outras produções também, na cana, também na produção de gado. Tem essa experiência muito bonito ali no interior de São Paulo, do cultivo orgânico em larga escala que já atinge hoje 5, não sei… a última vez que eu vi estava em 5 mil hectares de produção orgânica, entre o produtor e os associados ao redor.Então acho que essa mudança geral é que vai melhorando e ajudando que nas várias camadas as pessoas percebam que a natureza ajuda e não atrapalha e não ao contrário. O que foi vendido pra gente pela Revolução Verde que a gente controla a natureza e com isso a gente aumenta a produção de alimentos é um grande blefe. A gente aumenta a produção de alimentos para a indústria e pra aumentar o lucro das commodities e não pra aumentar a qualidade de vida, alimentação saudável, solo fértil, garantia de sustentabilidade no tempo. 

Léa: Você acredita que o biodigestor então, quando a comunidade ou o empreendedor resolve implementar isso, ele já também acaba se educando né, entendendo que é uma questão sistêmica. Você acha que o Biossistema, ele ajuda a pessoa a entender? Como que vocês trabalham além da tecnologia, esse diálogo com quem tá usando o Biossistema?

Valmir: Eu diria que esse é um dos principais pontos positivos do Biossistema.Até mais do que o retorno, e todos os retornos materiais que a gente tem com o Biossistema é a mudança de conceito. Isso acontece lá em Petrópolis também, as escolas vão visitar os Biossistemas. Os estudantes das universidades vão em Petrópolis visitar os Biossistemas. Na época em que eu ainda estava lá, eu lembro quando o André Trigueiro, porque ele é professor, continua sendo professor na PUC no Rio de Janeiro e talvez em outros lugares, ele ia com as turmas dele visitar o Biossistema Integrado. Então isso vai mudando. A partir dessas visitas, teve estudantes que depois foram fazer engenharia ambiental, foram fazer engenharia de Biossistemas. Isso em São Paulo também. 

E hoje tem uma rede de jovens que ta difundindo isso, que vivencia isso, que praticam pra eles mesmo, que constroem nas unidades deles e que hoje estão percorrendo o Brasil todo e replicando né, e ao mesmo tempo… Mas eles estão muito mais convencidos dessa formulação maior do que dos resultados em si. Os resultados, a gente vai incorporando, mudando, a gente vai melhorando, vai vendo o que pode ser transformado e mudado no dia a dia. Tem um deles que fez um laboratório na propriedade, comprou todos os equipamentos e está investindo nisso pra estar fazendo teste contínuo. Imagina, um interesse muito legal, muito grande. Pra mim essa é uma das grandes mudanças que a gente tem nesse momento e que isso continue crescendo cada vez mais. Com isso a gente vai ter uma juventude e adolescentes que vem nessa nova safra, percebendo que tem um outro jeito de produzir, que tem outro jeito pra melhorar de acordo com a economia circular.

Parte 5: Como expandir

Léa: E assim, pensando também nessa visão sistêmica e em tudo que está acontecendo hoje com a pandemia. E também pensando nas cidades aqui no Brasil. A grande maioria da população vive em cidades né, muitas cidades também  grandes né, gigantes, como São Paulo, Rio, que tem problema sério de saneamento. E o saneamento é feito dessa forma que você falou, centralizada, que não tem uma eficiência alta, mas por outro lado tem uma dificuldade de se implementar esses sistemas descentralizados, né? Seja por questões políticas, questões culturais ou outras questões de espaço mesmo… Como que você vê, como que você enxerga, os Biossistemas, toda essa tecnologia, pode ajudar a gente a sanar essa questão do saneamento, a resolver essa questão do saneamento? Nas pequenas cidades, eu acho que você já explicou que tecnologicamente é simples, né? Mas nas grandes cidades, como você acredita que a gente poderia trabalhar essa transição? 

Valmir: Eu acho que vai muito pela mudança de visão também dos empresários que estão na área de saneamento ambiental. Eu daria um conselho pra que eles fossem conhecer os Biossistemas já funcionando. Por exemplo, lá em Petrópolis, lá em Águas de Juturnaíba com a estação de Araruama.Porque normalmente a visão é ter o maior lucro no menor tempo possível. Então não interessa muito incorporar várias outras coisas dentro daquela produção que ele tem ali. Você tá produzindo saneamento, pra ele interessa que entra tanto, ele utiliza tanto de material químico pra despoluir e tantas bombas e tantas… e como que ele ta liberando o efluente final e se isso ta dando lucro ou não. E para os acionistas também é isso que interessa, que aumente os lucros deles nas ações que eles têm naquela empresa. 

Só pra te dar um exemplo, a SABESP em São Paulo tem estudos com reciclagem de nutrientes de lagoas de estabilização da década de 70, final da década de 70, início da década de 80. E eu tive acesso a esses estudos porque na época que o pessoal da SABESP foi pesquisar nos nossos Biossistemas, eles pesquisavam em Petrópolis, pesquisavam em Ubatuba, numa estação do professor Eneas Salati, ai de São Carlos eu acho, que também trabalha muito nessa área. E eles faziam as análises na CETESB em São Paulo. E aí eles me mostraram os estudos, que eles já tinham feito, com cultivo de milho e cultivo de tomate, com resultados fantásticos. A produção que eles tiveram utilizando água de efluente de estação de tratamento em produção que não tinha nenhum risco de contágio, nenhum risco de contaminação por cadeia molecular na planta, isso não existe com produção orgânico, existe sim com produção química, mas com produção orgânica não. Mas isso foi abandonado, porque não interessava eles ficarem canalizando energia para outras coisas que não fossem o saneamento mesmo né.

Então é essa abertura de visão. Você olhar a produção de várias outras coisas como propositiva, como coisa que melhora a qualidade de vida. E não somente produzir aquilo que dá lucro, aquilo que melhora a questão econômica, mas que não leva em conta a melhora da qualidade da terra, melhora a qualidade do alimento, melhora a qualidade de vida das pessoas que estão ali ao redor daquela estação. E o exemplo contrário é quando a gente tem um Biossistema, porque aí as pessoas que vivem ao redor da estação se beneficiam diretamente da estação. 

Lá na estação de Araruama eles até tinham um problema de segurança da estação, porque as pessoas queriam ficar pescado lá dentro da estação o tempo todo e como os peixes eram muito bons, muito grande, bonito, saudável, era difícil evitar isso. Tem os condomínios ao redor e eu vi uma reportagem que alguém perguntou para o coordenador da estação se as pessoas tinham algum receio do funcionamento da estação ao redor do condomínio. E ele dizendo “não, de jeito nenhum, o pessoal tá feliz da vida aqui, porque a estação representa alguma coisa muito boa pra eles, o Biossistema que está aqui”. 

E eu me lembro lá em Petrópolis, na época que implantou o Biossistema, as pessoas tinham muita pressão pra aumentar a área de habitação naquela área, naquela região ali… quando implantou o Biossistema, foi um pouco duvidoso se ia ter uma aceitação maior da comunidade ou não. Depois que o sistema estava implantado, quando chegava visita na casa das pessoas na comunidade, o lugar que elas levavam pra visitar era a estação.Pra mostrar né. E as pessoas iam lá e podiam ver o esgoto entrando de um lado e saindo água cristalina do outro e aquele jardim bonito dentro da comunidade. Então é essa mudança de visão que eu acho que é a coisa mais… a outra coisa é que as corporações já estão sempre antecipadas. Quando existem as eleições, quando entram novos gestores, eles já têm seus compromissos amarrados. E é muito difícil pra eles mudarem. Então o saneamento é uma das coisas que se fazem nos municípios que está muito amarrada, então quebrar isso  não é fácil, né. 

Nós estamos num apagão, num momento que não dá pra considerar essas coisas. A gente tem anti-ministros em cada área, né. Porque em vez deles mudarem pra melhorar as suas áreas, eles lutam pra destruir em função do ganho rápido num curto espaço de tempo, seja na economia, seja no ambiente, com esse desastroso que está ai no ambiente, na saúde, nem se fala, o que está acontecendo é um desastre total, nas outras áreas quando a gente… ufff…é difícil¹. Mas, tudo isso também tem que funcionar como um motor pra gente resistir e criar um caldo pra gente melhorar a partir disso. A gente tá vendo que não presta, a gente tá vendo o que não deve ser. Então a gente pode fazer ainda muito mais com aquilo que a gente já tem hoje de conhecimento né. E assim vocês que estão aí trabalhando com economia circular e difundindo isso nas universidades, nas comunidades, nos municípios. 

Os municípios grandes, é mais difícil porque fica muito diluído. Mas quando tem as universidades, quando tem as pessoas que pensam e estão ali discutindo sempre, num momento como esse, aparece muito mais de que lado a gente está. E às vezes quando as coisas estão funcionando bem, a gente não se dá conta e não dá tanto valor, né. Então, mesmo na questão dos Biossistemas Integrados, nos governos democráticos, a gente não teve muito sucesso, porque estava tudo funcionando normal. Então o nosso avanço era sempre maior pelo lado privado. E o que eu espero agora com tudo isso que está acontecendo é que a gente perceba que não. Se a gente quiser melhorar, a gente melhora tanto no ponto de vista privado como no ponto de vista público, mas principalmente o público, porque o público é para todos.

Léa: É isso Valmir, olha, te agradeço muito toda essa explicação. Eu não vejo a hora dessa pandemia acabar pra eu poder visitar um Biossistema, a gente tava combinando antes da pandemia, não foi? Que a gente trocou uns e-mails pra visitar de perto e aprender um pouquinho mais com vocês. Então, agradeço muito o seu tempo. 

Valmir: Agradeço muito também a vocês! Aí em São Paulo tem vários Biossistemas implantados, mais próximo, né… quando terminar a pandemia pra vocês visitarem quando quiserem visitar em Petrópolis assim que terminar a pandemia eu volto pra lá também. Também a gente pode marcar visitas lá… E se puderem um dia visitar a estação de Araruama onde é o Biossistema maior, aí precisa agendar com a Águas de Juturnaíba. Mas eles também estão lá aprendendo muito com o Biossistema. Então é interessante pra eles e vocês que estão nessa linha mais profissional da economia circular e o que eu vejo vocês de uma forma mais ampla né, vocês não estão tanto só na reciclagem biológica, vocês pegam toda forma de reciclagem, reciclagem técnica também. E isso é muito importante, então a gente vai ampliando isso cada vez mais. Isso que faz parte desse debate maior né, que faz a gente ir entendendo as coisas.

Eu tenho um outro empresário no Rio de Janeiro que está pesquisando as ODSs e pra surpresa dele, porque como ele está trabalhando em vários segmentos, o segmento que ele mais percebeu que a gente melhor completa as ODS, acho que são 17 que estão lá definidas… os Biossistemas completam 13 ou 14 delas. E ele falou que nenhuma das outras coisas estão conseguindo chegar a esse nível. E que bom né, eu nem sabia disso, foi ele que me chamou pra dizer. E aí tinha algumas que ele tinha deixado fora e eu disse olha isso aqui é completamente produção de água em estado de balneabilidade, tinha um negócio assim de água com efluente com qualidade e ele não tinha colocado e aí eu falei “pô isso é a primeira”,Porque só depende do tamanho, você consegue deixar a água potável outra vez se você reciclar 100% os nutrientes e eliminar 100% os coliformes, deixar a água totalmente limpa outra vez. E isso é feito, tem alguns países que fazem isso, já utilizando a natureza, invés de poluir pra depois despoluir, deixa a natureza já fazer esse trabalho. Cada vez mais, isso tanto na Europa como nos Estados Unidos acho que os Estados Unidos são até mais do que Europa nesse sentido, de conservar os mananciais pra ter a água cada vez melhor qualidade pra não ter que fazer grandes tratamentos no final. 

Então agradeço muito vocês também por estarem ajudando a incorporar essa visão macro que não é só da reciclagem biológica. Muito obrigado e tudo de bom pra vocês, muito sucesso ai no trabalho.

Léa: Muito sucesso pra vocês também e a gente vai ficando em contato por aqui!

Valmir: Ta ok, beleza!

Nota 1: esta entrevista foi realizada em agosto de 2021, quando o Ricardo Salles era Ministro de Meio Ambiente do governo Jair Bolsonaro.

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