Parangolé: o descartável pode ser circular?

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Parangolé
Parangolé

A Ideia Circular conversou com as fundadoras da Parangolé, as empreendedoras Raquil Lange e Maria Mazzucchelli, que participaram da primeira turma do curso digital da Ideia Circular Economia Circular na Prática: entenda, desenhe, transformeque inclusive está com as inscrições abertas para a sua oitava edição.

A Parangolé é uma empresa de consultoria em embalagens, consumo e descarte, e de vendas de produtos descartáveis pensados para a economia circular. As empreendedoras contaram pra gente sobre como vêm pensando os produtos de consumo rápido a partir da circularidade e como o curso da Ideia Circular apoiou o desenvolvimento desse projeto pioneiro no mercado de embalagens no Brasil. Falaram também do percurso até aqui e como elas têm superado os principais obstáculos ao longo dos seus 10 anos de atuação no mercado brasileiro.

A empresa nasceu a partir de um olhar para os resíduos de festas infantis e, atualmente, oferece uma marca que tem como principal característica o cuidado com os materiais e design de forma que esses produtos possam ser descartados de forma benéfica para o meio ambiente. Hoje em dia, a Parangolé ampliou a sua atuação  com consultorias sobre embalagens para varejo, com pesquisa sobre materiais e produtos descartáveis de melhor impacto ambiental.

Parangolé
Talheres de madeira. Fonte: Parangolé.

Mesmo antes de entrarem em contato com o conceito da economia circular, as duas sócias já pensavam em como reverter o cenário de grande desperdício das festas infantis. Para isso, a Parangolé apostou em embalagens e produtos que fossem compostáveis de forma segura para a natureza, ou que fossem duráveis para serem reutilizados em eventos futuros. Nesse bate-papo, você vai entender um pouco mais sobre a trajetória da Raquil e da Maria com a Parangolé, como passaram pelas dificuldades do mercado e do setor, até as oportunidades e ações de sucesso da empresa no decorrer dos últimos 10 anos.

Elas também contaram como a participação delas no curso Economia Circular na prática: entenda, desenhe, transforme, oferecido pela Ideia Circular, impactou a trajetória da empresa.

“Não é um material compostável? Não tem problema nenhum. Ele tem uma reciclabilidade excelente, ele volta pra cadeia? Como ele volta? Como funciona? E daí, tá tudo certo. Tem que voltar. E isso a gente aprendeu muito com a Ideia Circular. Outra coisa que eu acho importante falar do aprendizado com a Léa e com a Carla, que a gente fala muito e é bem a nossa linha, é que é abundante” – Maria Mazzucchelli

“A primeira fonte que a gente começou a beber foi a Ideia Circular, que era o que aparecia pra gente. Onde é que tem economia circular? Era a Ideia Circular.” – Raquil Lange

A gente dividiu a entrevista com a Raquil e a Maria em cinco partes:

O descartável e a sustentabilidade

A história da Parangolé começou com o incômodo de  Maria e Raquil ao ver o desperdício gerado pelas festas infantis das suas filhas. Foi quando as duas designers se juntaram para investigar materiais e soluções alternativas para os materiais de uso único, os descartáveis, que geram um enorme volume de desperdício e resíduos no final das festas.

E intuitivamente, as soluções que elas pensaram distinguiam os produtos feitos de materiais técnicos, que são mais duráveis, dos biológicos, que podem retornar de forma segura para a natureza. Essa distinção dos ciclos técnico e biológico é uma das ideias mais importantes da economia circular.

“Tudo que fosse descartável, a gente teria que poder enterrar. E tudo que não fosse descartável, a gente queria que fosse muito durável.” – Raquil Lange

Quando as empreendedoras começaram a entender que o descartável nem sempre combina com a sustentabilidade, a Parangolé iniciou um serviço de consultoria, apoiando diversos clientes do varejo a desenvolver embalagens com melhores materiais para essa mudança de paradigma e transição circular.

Processo da Ybyrá.
Ciclo de embalagens de folha de bananeira da Ybyrá revendidas pela Parangolé. Fonte: Ybyrá.

“Foi marcante entender que a gente tá numa fase de transição (…), a gente tá num processo de chegar num momento em que a gente não precise disso (descartáveis). E enquanto a gente precisa, o que pode ser melhor?(…) e uma coisa que a gente aprendeu com a Léa e a Carla (Ideia Circular) é que eu não vou fazer ‘menos pior’, eu vou fazer direito!” – Maria Mazzucchelli

“Nessa consultoria a gente aprendeu muita coisa e a gente consegue abrir uma nova porta. E com o chocolate a gente ficou muito feliz porque (…) a gente tem uma chance de começar um trabalho pensando circularmente, como a gente aprendeu com os nossos professores. Tivemos a chance de começar e não de consertar” – Raquil Lange

Consultoria para varejo

Nesse novo processo de consultoria para varejo, a Maria contou sobre o desenvolvimento de materiais e estratégias circulares junto dos clientes, explicando que não existe uma resposta certa ou fórmula mágica. Algumas questões são importantes para a Parangolé , como o fechamento dos ciclos dos produtos: eles devem ser compostáveis para o ciclo biológico ou retornáveis para continuar no ciclo técnico. Outro ponto é o pensamento da abundância, diferente da visão restritiva da sustentabilidade, muito ligada à minimização de danos e à restrição de opções. A ideia é propor critérios claros de escolha, desenvolver soluções adequadas e comunicar isso positivamente e com transparência.

“Os clientes chegam assim: qual a resposta correta? Não tem. Você tem que entender qual critério você quer, escolher e comunicar internamente e pro consumidor.” – Maria Mazzucchelli

 

Melhores materiais e demandas da indústria

Como as fábricas de materiais não convencionais têm dificuldade em vender pequenas quantidades dos seus produtos, a Parangolé entra na jogada para comercializá-los de forma fracionada. A empresa representa algumas indústrias de embalagem no Brasil: a Oka Bioembalagens, que tem como matéria prima a mandioca; a Tamoios, que fabrica bandejas de massa de celulose como alternativas ao isopor; e a Ybirá, que transforma rejeitos da natureza em embalagens, como folhas caídas e podas de jardinagem.

Tamoios
Embalagens de massa de celulose desenvolvidas pela Tamoios e revendidas pela Parangolé. Fonte: Tamoios.

“A gente virou um portal: as pessoas chegam na gente perguntando se a gente quer representar” – Maria Mazzucchelli

As designers também compartilharam sua visão sobre o crescimento dos projetos de embalagens e para atender às demandas da indústria de forma geral. Existe uma dificuldade de aumentar as escalas e profissionalizar o comércio, já que os pequenos empreendedores precisam de apoio financeiro e de capacitação para conseguir atender esse grande contexto industrial. Mas que, apesar das barreiras, as grandes fábricas e empresas brasileiras estão olhando para isso e existe espaço e capilaridade no mercado para esses pequenos empreendimentos. O caminho é investimento não só financeiro, mas a capacitação de empreendedores que buscam inovação.

Ybyrá.
Embalagens de folha de bananeira desenvolvidas pela Ybyrá e revendidas pela Parangolé. Fonte: Ybyrá.

“Tem um momento dos nossos filhos que as roupas vão até o 12 e depois tem o P adulto. Tem um meio do caminho que você não sabe se é adolescente, adulto pequeno, o que te veste melhor. Eu entendo que essas fábricas estão nesse lugar” – Raquil Lange

Monetização de embalagens

Durante sua atuação no mercado e na consultoria, as sócias da Parangolé desenvolveram uma visão crítica sobre a monetização de embalagens. Existe uma dificuldade do varejo em abrir mão do lucro gerado em cima das embalagens e pensar o fator financeiro por um outro olhar. Além disso, a rede de varejo normalmente já tem seus custos estruturados e mudanças nesse sistema tornam-se complicadas. 

“Você tá vendendo bombom ou você tá vendendo celofane? Deixa só o bombom, bota a embalagem na linha do administrativo. Você tira isso (embalagem) da precificação(…) É outra conta.” – Maria Mazzucchelli

 

Melhoria contínua: futuro da Parangolé

Depois de 10 anos no mercado, qual o futuro da Parangolé? A Maria e Raquil compartilham como essa jornada é uma melhoria contínua, sempre em busca de parceiros e tecnologias para desenvolvimento de novos e melhores materiais. Na conversa a Maria explica sobre o objetivo da Parangolé de encontrar um melhor material para velas de parafina. Objetivo que inclusive as duas designers alcançaram com o recente lançamento das velas à base de óleos vegetais com pavio feito de algodão sem aditivos químicos – o que torna o produto totalmente compostável.

Vela de carnaúba
Velas de carnaúba. Fonte: Parangolé.

Outro passo importante que a Parangolé vem trabalhando na busca para a circularidade é com mudança de comportamento e mentalidade das empresas. E esse é um trabalho que estão fazendo através de consultorias, já que acreditam que para mudar o paradigma, é necessário uma visão sistêmica. Para isso, a Maria e a Raquil vêm apoiando e incentivando a educação e colaboração não só dentro das empresas, mas também na educação das crianças e jovens.

“Essa história de ser sistêmico, né? A gente entendeu o que é isso. A gente começou a entender tudo como um todo” – Raquil Lange

Se você quiser saber mais sobre o trabalho da Parangolé e de seus produtos, aqui está o link da empresa. E, se você quiser saber mais sobre o curso online da Ideia Circular que a Maria e Raquil comentaram (Economia Circular na Prática: Entenda, Desenhe, Transforme), aproveita agora que as inscrições da oitava turma estão abertas (somente até dia 08 de outubro de 2021)!

Se preferir ler ao invés de assistir, seguem abaixo as transcrições da entrevista. Depois de assistir ou ler, conta pra gente o que você achou?  

 

livro digital gratuito: 28 estudos de caso design e inovação para a economia circular no Brasil e no mundo

Entrevista com Maria Mazzucchelli e Raquil Lange (Parangolé)

Léa: Olá. Eu estou aqui com a Raquil e a Maria, que são fundadoras da Parangolé. Elas são designers também. Então, primeiro muito obrigada por estar aqui, pelo tempo de vocês. A gente está muito feliz de poder conversar um pouco sobre o que é a Parangolé e o que a Parangolé tem feito. E também saber quais são os planos de vocês. Então eu acho que começaria por aí. Se vocês puderem falar um pouquinho do que é a Parangolé e quais são os serviços que ela oferece.

Raquil: Bom, a Parangolé surgiu no seguinte formato: a Maria e eu a gente era amiga já e a gente…Duas designers, a gente estava namorando já para trabalhar juntas. E a gente tinha as crianças pequenininhas e começou a ter as festas das crianças. E a gente começou a ter muito desespero porque a gente tinha uns traumas na festa, porque tinha muito lixo, que era uma coisa que a gente já tinha essa aflição, né, Má? Do desperdício, do que que tinha que ser… Como a festa infantil tinha que ser. Então tinha que ser temática, tinha que ter muita coisa. 

Então, a gente começou a ficar com uma certa aflição e nas nossas conversas a gente começou a conversar e falar o que é que dá pra fazer? Como que daria para ser um material melhor? E eu sou produtora gráfica também, então eu gosto dessa investigação, do que é que tem no mercado que seria melhor. Então a gente resolveu fazer a Parangolé. 

A gente foi e voltou algumas vezes, mas aí descobrimos que para fazer um lote de copo a gente teria que ter apenas uma garagem disponível. Então a gente falou: bom, se der tudo errado a gente tem um monte de copo e a gente vê o que faz. Então, a gente começou a procurar e falar: ‘tá bom então, a gente quer ter uma marca que seja atemporal, que seja circular’. A gente nem sabia o que era Economia Circular, mas a gente queria que fosse com produtos que a gente pudesse enterrar depois. 

A gente tinha até uma uma referência inglesa que a gente adorava que chamava Eco My Party e que a gente falava meu é isso, não tem que ter tanta coisa, tanto desperdício e tudo que tiver que ser descartável a gente teria que poder enterrar. Então a gente começou a investigar isso e tudo que não fosse descartável, a gente queria que fosse muito durável. Então, a gente pensou nas bandeirinhas, nas toalhas de mesa – tudo de tecido. E eu lembro que a mãe da Má ajudou a gente a fazer toda a logística dos cortes das toalhas.

Maria: Do aproveitamento.

Raquil: Tudo que sobrava virava bandeirinha, então a gente tinha assim… Não tinha nenhum tipo de sobra de tecido e os copinhos e os pratos eram de papel. Então nesse… O copo a gente foi investigar, a gente chegou nessa fábrica no Rio, a gente foi até lá e era um copo que tinha cera, aí a gente foi na fábrica e falou “a gente não quer cera”. E ele “não, mas tem um porquê de ter essa cera, o copo é molinho”. E a gente “não, mas a gente não quer a cera, porque a gente não quer…”. E eu acho que instintivamente a gente já sabia que não podia ter dois tipos de materiais juntos, né? E aí a gente fez o primeiro lote dos copinhos da Parangolé sem a tal da cera. E assim colocava água e ele era mole, né? 

Maria: As crianças faziam assim (seguravam o copo e amassavam) e era pra criança de dois anos. Pegava o copo e “pff”, pegava o copo e “pff”. Nossa, deu super errado.

Raquil: Não e aí a gente também estava pensando em ser só pra ter kits, não era para vender separado, mas foi super sucesso e uma outra coisa que eu gosto muito de contar que eu acho muito linda foi que a gente tinha one shot (uma chance). Então era assim, a gente tinha para prato três cores, com o fundo branco, e para o copo a gente tinha uma cor de pantone. 

Então a gente ficou numa piração eu e a Má durante muito tempo. O que seria? O que teria que ter no copo? O que teria que ter no prato? E quais eram as cores? E é engraçado pensar porque faz 10 anos isso e as pessoas falavam se vocês… A gente escolheu colocar turquesa no corpo e marrom, turquesa e laranja no prato. Então as pessoas falavam “gente, é rosa ou azul, vocês não vão vender, vendendo laranja e marrom, entendeu?” mas enfim deu super certo e assim começou a Parangolé.

Maria: Eu acho que assim, os pilares, né Rá? Que era assim, né, menos desperdício e sem gênero. É que hoje a gente olhando para trás e estudando a gente sabe como é, né? Hoje a gente sabe nomear. Na época a gente falava “não, tem que servir pra menino e pra menina”. Hoje a gente sabe que tem o termo sem gênero, que na época pra gente era bem distante. Então acho que era isso, zero desperdício, total aproveitamento ou se tivesse desperdício tinha que voltar pra natureza de alguma forma. A gente tomou vários capotes, mas assim, acho que hoje não mais, mas até anos atrás os que mais vendiam eram os primeiros modelos. Tanto que eles fazem parte da coleção até hoje. E, esse foi o começo. 

Depois de muito estuda, estuda, estuda, a gente aplicou para ser “empresa B”, a gente fez o curso da Ideia Circular, fez alguns outros vários cursos também de Economia Circular, de Economia Regenerativa. E deu um bug na cabeça, principalmente da Raquil, que é mais visionária. E nossa o que a gente tá fazendo? Por que a gente está vendendo descartável? Que não é nada sustentável. Até hoje a gente estava dizendo que eram produtos sustentáveis e na verdade continua nesse processo de consumo e descarte.

Raquil: Quando a gente começou a entender que existia um estudo maior sobre isso, a gente começou a ir atrás. E a primeira fonte que a gente começou a beber foi a Ideia Circular, que era o que aparecia pra gente, né? É onde tem Economia Circular era a Ideia Circular. Então a gente começou a namorar, e falou “nossa quem são essas meninas? Quem são elas? Olha que legal…” Então, a gente sempre procurava querer saber mais. 

Maria: Enfim, acho que foram os processos, né? E aí nesse determinado momento que a gente percebeu que o descartável não conversa com sustentabilidade, né… A gente resolveu abrir uma consultoria e aí a gente presta algumas consultorias para varejo hoje. A gente já fez uma super legal para o Natural da Terra. Fizemos também uma consultoria muito bacana para uma marca de chocolate com embalagem compostável e o que eu acho que foi marcante também, foi entender que a gente está numa fase de transição, né? 

Então, que é uma coisa que a Rá fica muito mais aflita do que eu, que é assim, “eu não quero mais vender descartável, eu não quero mais vender embalagem que você descarta”. Mas eu acho que assim, a gente tá num processo de chegar aonde talvez não precise disso. Enquanto a gente precisa, o que pode ser melhor, né? E aí vem também um pensamento não tão frutífero que é muito ouvindo o que a Ideia Circular fala, a Léa e a Carla, eu não vou fazer o menos pior, vou fazer direito. Eu acho que assim, o mundo não está preparado para fazer direito, pelo menos nesse campo que a gente atua, né. Tem coisas que a gente consegue eliminar embalagem, tem três coisas que embalam o chocolate, deixa uma só.

Raquil: E aí foi muito bom porque como a gente sempre foi investigativa a gente falou meu, vamos tentar ver essa história da consultoria. E a gente teve uma chance, e nessa consultoria a gente aprendeu muita coisa e a gente consegue abrir uma nova porta. E com o chocolate, a gente ficou muito feliz que a gente falou, a gente tem uma chance de começar um trabalho pensando circularmente, como a gente aprendeu com os nossos professores. Então a gente tem a chance de começar a criar.

Maria: E não de consertar, mas de começar.

Raquil: É, exatamente.A gente conseguiu fazer o dono da fábrica entender, apoiar, querer, então é um projeto lindo e que a gente ficou muito contente de fazer parte, muito.

Maria: Acho que assim, uma das coisas mais importantes e que a gente bate na tecla é assim, depende qual é o melhor material, né. Claro que é melhor você não usar um material para um fim durável, para uma coisa descartável. A gente teve uma reunião com o iFood que veio procurar a gente pelas questões de embalagem. E é muito difícil porque eles chegam, todos os clientes chegam assim, qual é a resposta correta? Não tem! Você tem que entender qual o critério você quer escolher e comunicar seu critério internamente e para o consumidor. Você pode escolher um material que tem… A menos que você escolha um material que não tem reciclabilidade, que vai parar no aterro, aí não, esse tá proibido. 

Então a gente sempre coloca alguns critérios e dentro desses critérios a escolha é feita e tem que ser comunicada. Então assim, não é um material compostável? Não tem problema nenhum, ele tem uma reciclabilidade excelente? Ele volta pra cadeia, como ele volta, como é que funciona? Tá tudo certo. A gente não acredita que tudo tenha que ser compostável. Não é esse lugar, tem que voltar e isso a gente aprendeu muito com a Ideia Circular. E outra coisa que eu acho importante falar do aprendizado com a Léa e a Carla, que eu acho que a gente fala muito. E é bem a nossa linha…é que é abundante. Até eu vi o Fred Gelli (designer) falando, né? “Ah não, mas é restritivo” e a Léa “Não, não, não”. E eu acho, assim, é abundante. 

Quando a gente fala hoje de sustentabilidade é muito chato. Eu dei uma aula para a turma da minha filha mais nova, que é o nono ano e já estão indo para o primeiro colegial. Tem uma dificuldade muito grande, “Ah, eu vou ter que passar vontade, eu vou ter que me restringir”. E não, pensa diferente, pensa em outro lugar já, né. Sai daqui. Gente, não dá. Ai, não pode isso, ai não pode aquilo. Aí você fica se sentindo tolhido, então eu acho que trabalhar nesse lugar da abundância faz com que acabe com a polarização. 

Raquil: O que acontece…Eu tenho uma amiga que fica muito nervosa, ela fala “Então tá, chegou, é compostável, tá 100% OK”. E eu falei “Olha, é importante entender que não. Se você descarta essa embalagem compostável dentro de um saco de lixo e vai parar no aterro…” Eu e a Má sempre tentamos colocar cor na apresentação, e agora nessa nova empreitada com uma nova amiga a gente tá tentando fazer apresentações divertidas, que as pessoas deem risada, porque senão fica muito complicado, senão as pessoas nem começam a se mexer, elas morrem de medo. 

Maria: Trabalhar com humor é importante, porque não dá, sabe? Assim, principalmente se está educando. Quando você vai educar, trazer um pouco de humor ajuda. Porque é isso…as pessoas se sentem tolhidas. “Ai, mas isso não pode”. Aí você vai para uma fábrica: “Ai, é mais caro, ai não sei o que lá”. Eu fico, cara, eu vou provar pra essa pessoa que vai ter lucro. Porque eu acho que às vezes é só quando você também entra na linguagem. Como falar a linguagem dessa pessoa pra ver como é que eu posso convertê-la, né? É pelo bolso? Então eu vou me matar numa planilha de Excel e vou provar que pelo bolso vai dar certo.

Raquil: Então enfim, a Parangolé virou tudo isso.

Maria: Produtos para festa com o melhor material, embalagem de delivery e de FLV (Frutas, Legumes e Verduras) de melhor material. Porque a gente também virou um portal, as pessoas chegam na gente perguntando se a gente quer representar. Então hoje a gente representa a Oca, a Tamoios, porque as fábricas têm um problema muito grande de vender pequena quantidade. Quando você tem um food truck e você quer vender uma embalagem melhor, você liga numa fábrica e tem que comprar cinquenta mil unidades. Eles passam pra gente o que eles chamam de “caroço”, a Parangolé resolve o caroço porque a gente é muito acostumado a fracionar, nosso business é fracionar. Então a gente vende fracionado, a gente representa algumas embalagens, a Tamoios e a Oca e hoje a Ibirá que tá superlegal.

A Oca usa de matéria-prima massa de mandioca. O que acontece…se você ligar para a Érica, ela não vende fracionado tipo dez, vinte unidades. Então a gente fraciona o fardo dela. A Tamoios trabalha com bandeja para substituir bandeja de isopor. O grande foco deles é a bandeja de massa de celulose e ela é bioativa porque ela aumenta o tempo de prateleira do produto. E essa massa que eles usam é feita de apara. Então não é papel virgem… quer dizer, é de papel virgem mas vem de apara. Então é super interessante também e agora ele tá com um projeto para usar as embalagens do varejo, onde ele já está, para poder fazer as bandejas dele. E ele compete, a mandioca é muito mais cara, já a massa de celulose, essa da Tamoios, é muito próxima ao preço do isopor. Então é viável, é super legal. 

A Ibirá é um projeto maravilhoso, não é escalável, e ele também pensa assim… As máquinas deles são pequenas para colocar em comunidades locais e eles só trabalham com rejeito da natureza, ele trabalha com folha de palmeira e não extrai nada da natureza, só com folha caída e esteriliza com UV. É super interessante o projeto e é isso…Hoje ele já está em contato com a poda da prefeitura e o projeto dele é assim, o futuro do projeto dele é assim…não está acontecendo ainda porque ele tem uma máquina só, mas é para que as máquinas cheguem nas comunidades locais e que as pessoas se utilizem dessa máquina e dos rejeitos da natureza para poder ganhar um dinheirinho. Então, que as comunidades passem a vender… Não é ele, ele não quer ganhar nada. Ele quer vender a máquina, ele quer que alguém subsidie a máquina, para que no final das contas a comunidade se beneficie. Não tem nada a ver com o lucro que ele vai ter. Então é um projeto super legal, super redondo, mas é um projeto que, claro, não é industrial, de escala, é um outro modelo.

Léa: Como é que vocês veem essa dificuldade de escalar mesmo esses projetos? Como vocês veem em médio prazo, daqui cinco, dez anos esses projetos que vocês apoiam e como eles vão poder crescer de uma forma para poder atender a indústria de forma geral?

Raquil: É uma coisa tão complicada. Tem um momento dos nossos filhos que eles não são. As roupas vão até doze e depois tem P adulto. Tem um meio do caminho que é uma coisa louca assim. Você não sabe se você adolescente, se você é adulto pequeno, o que te veste melhor? Eu entendo que essas fábricas estão nesse lugar. Eu vejo a Ibirá, a Oca e a Tamoios. Eu gostaria de ter muito dinheiro para conseguir aportar todos esses “bebês-embalagem”, porque eles são uma potência…Para pode ter injeção de dinheiro. 

Maria: Eu vejo uma coisa assim…Pra mim tem um caminho claro até. Aí depende muito assim…A Ibirá acho que nunca vai ser escalável, não é a proposta, mas a Tamoios hoje está no Pão de Açúcar, Carrefour…Então assim, tem volume, tem estrutura, é mais robusta. Eu acho que tem problema do pequeno empreendedor. Se tivesse uma incubadora, uma aceleradora que olhasse para isso e, a meu ver, não é investir só grana, não é só dinheiro. É dinheiro, mais capacitação, mais pessoas trabalhando juntas. Então muito da dificuldade é profissionalizar esse comercial e trazer para esse empreendedor, que às vezes eu nem sei se ele quer, aportes de empresas maiores. Então a gente tem uma super conversa com a grande player de marmita de alumínio que assim, daqui a pouco se a gente fala para ele “É aqui”… Ele vai investir, vai comprar. Mas tem que saber se essa pessoa quer ser vendida, se ela está apegada ao projeto dela ou se ela quer que isso vá pro mundo. Como funciona? Eu acho que assim, as grandes fábricas estão olhando para isso. 

Essa empresa que trabalha com marmita de alumínio, gente…Eu nunca tinha ouvido falar da marca na minha vida. De repente, eu olho pra tudo que é lado, tudo é dessa marca, ou seja, ele tem uma capilaridade enorme e ele está buscando investimento em melhores propostas. O que ele fala é “Beleza, eu não quero ficar vendendo isso daqui pra minha vida toda, não está certo”. Ele já se ligou, ele já está nesse lugar. Então é a mesma coisa, hoje a gente vê a Unilever comprando Mãe Terra. Eu acho que tem espaço, tem que entender se vai dar match. Tem que entender como é que encaixa isso. 

Léa: Porque quem tem essa capacidade comercial como vocês estão falando são essas grandes potências, né?

Raquil: Porque a gente sabe disso tudo Léa, porque a gente está na Parangolé há dez anos e a gente também cansou… mas tem uma coisa que é isso também, né. Tem que entender… A gente vê que tem esses projetos bons, mas é isso que eu falei, você não é nem aqui nem ali ainda. O Rafa falou uma frase maravilhosa, o Rafa da Tamoios… “Ou eu morro de seca, ou de inundação”. Ele não consegue estar no meio do caminho se preparando para chegar na inundação e não morrer. Porque ele está lá cuidando da seca dele, do dia-a-dia, e na hora que triplica o pedido dele, ele não tem como atender. 

Raquil: Tem essa discussão antiguíssima nossa que a gente dá muita risada e eu adoro contar. A gente queria fazer um kit de festas para oito pessoas e eu queria uma caixa linda e a gente foi atrás da caixa linda, achamos a caixa linda. E a Má falou “Rá, não dá pra ser nessa caixa” e eu falei “Mas por que não?” e ela “ Porque na hora de fazer o custo, uma festinha que a gente queria que custasse menos de sessenta, fica tipo noventa” e eu “Não, Má, mas não dá.” e ela “Sim, porque olha aqui…” e aí ela colocava na planilha mágica dela, me mostrava, e eu falava “Tira então a embalagem da linha do custo e coloca a embalagem depois”. 

E aí isso foi dando uns nós na nossa cabeça. E é uma discussão que a gente sabe que é uma discussão econômica, tanto que a partir de tudo isso a gente começou a estudar o Doughnut Economy (Economia do Donut) a Nova Economia, a gente começou a estudar e a gente descobriu que tem outras pessoas que pensam financeiramente diferente. Agora, se a gente falar isso para uma rede de varejo que tem todos os custos organizados, eles querem ejetar a gente de lá na mesma hora. Por quê? A gente sabe que se eles trocam mas não ganham em cima da embalagem, eles também tem que abrir mão de um determinado lucro, né… Então fica uma coisa complicada, por isso que a Má fala “Tá bom, então vamos achar uma solução que seja, por enquanto, no que as pessoas podem agora”.

Maria: Porque é assim, não vamos monetizar embalagem. Por que você monetiza a embalagem? Você está vendendo embalagem? E nossa, isso sim foi uma discussão de… Porque assim, eu fui ensinada a calcular preço de um jeito, como acho que todas as pessoas que trabalham com produtos foram ensinadas a calcular preço desse jeito, senão complica sua vida. Mas na verdade, com tanto questionamento da minha amiga aqui inovadora, eu falei tudo bem. 

O lance é, tem que tá em algum lugar o custo. Troca de linha… na linha do administrativo, né? Então vamos jogar as embalagens no administrativo. Ela vai ser paga. Mas aí geralmente você calcula o produto e ele é multiplicado por três para você vender pro atacado, então chega na ponta seis vezes mais. Então uma embalagem que você gastou um real chega na ponta a seis reais. Por quê? Por que ela não pode ir a um real até lá? E aí quando a gente entendeu assim, não, dá pra não monetizar a embalagem. Pelo menos no nosso processo. Não é que a gente faz isso para todos os produtos, porque é um novo aprendizado de cálculo para todo mundo. Então assim, todo mundo da empresa que já tinha aprendido a fazer de um jeito, você já buga a cabeça da pessoa mesmo na hora que você fala isso. 

Mas enfim, como é que eu jogo? Como é que eu faço? Então tem que de fato aprender de novo. Se uma embalagem é muito mais cara, vamos dar um exemplo aí do caso, não é o valor certo do NatureFlex (celofane compostável), mas assim, é muito mais caro? Você está vendendo bombom ou você está vendendo celofane. Deixa o seu bombom, bota sua embalagem na linha do seu administrativo, você tira isso da precificação. É um valor do administrativo que o bombom vai ter que cobrir, você vai ter que vender bombom pra caramba pra cobrir aquela linha, mas é outra conta. 

Carol: Quais são os seus objetivos com relação à circularidade? Se vocês estipulam metas para superar esses desafios.

Maria: Vou colocar mais do que a gente consegue de fato fazer, que é olhando os relatórios do sistema B, tá? Que eu acho que é onde a gente acaba se apoiando mais. Pelos relatórios, a gente entende o quanto os percentuais mesmo do que a gente vende que são melhores materiais e piores materiais. Nossa, a gente tem uma meta assim, 30% do nosso faturamento vem de um material que não é tão legal, que são as velas de parafinas. Então quando a gente viu o relatório, a gente tomou um belo susto e talvez quase não teríamos conseguido a certificação por conta desse número, mas ele bateu ali na trave. 

Então acho que assim, a primeira coisa que a gente olhou foi pra ele, né. Então assim, vamos eliminar esses 30%? Dá pra parar de vender? Não dá pra parar de vender, porque é 30% e vende feito água. Então tá, não podemos abrir mão dessa parte financeira. Mas o que a gente pode fazer para melhorar? Então a gente tem buscado tecnologia e parceiros para desenvolver um produto, uma vela de melhor material. 

Então o nosso objetivo de imediato é olhar para esse lugar, para esses 30%. E também assim, porque a gente poderia resolver ele agora com um aumento de preço drástico, mas não é o objetivo, a gente quer que tenha competitividade de mercado e tal, né. Pra poder entrar, pra não ser um material que substitua e que seja muito mais caro. Então é super complexo, a gente tá assim na beira do caminho ali pra acontecer. 

Cada uma da empresa, a gente é em três, tem uma cara. Pra mim é ir olhar e meu, pega uma fábrica grande, dá o projeto e ganha royalties mas o material vai pro mercado. A gente tem pensamentos diferentes entre as sócias, mas às vezes é isso, sabe? É mais importante garantir um lucro enorme ou é mais importante que esse material chegue no mercado? Pra gente é mais importante que ele chegue no mercado. Então assim, o filho é do mundo, vai! E a gente absorve o produto e substitui os 30%. Outra coisa importante que a gente vem trabalhando em busca da circularidade é a mudança de comportamento e mentalidade de empresa, que eu acho que é um ponto forte e é por isso que a gente está montando esse outro projeto de consultoria. Pra fazer barulho mesmo e pra mudar, tem que mudar o pensamento, né? Tem que mudar o paradigma.

Raquil: É a história de ser sistêmico, a gente entendeu o que é isso. Tanto que quando o iFood ligou pra gente, a gente falou “Ó, você está procurando a gente por que?”  “Ah, porque a gente viu, porque vocês, embalagem, biomateriais…” A gente falou “Tá bom, mas a gente pode fazer tudo isso aqui…” e ele falou “Nossa, até cuidar do resíduos do fundo de  loja do restaurante?” e a gente falou “Sim”. Então acho que a Parangolé começou a entender tudo como um todo. Como a gente faz ser melhor. A gente tem a sorte de ter começado tudo direitinho, mas sempre tem coisa pra melhorar, né, sempre tem coisa pra melhorar.

Maria: É… quando a gente fala de mudança de comportamento…E aí eu acho que tem essas duas coisas né, Raquil? Acho que são super legais, até com essa coisa de ter dado aula pras crianças da escola da minha filha, foi uma coisa que brotou na gente no fundo a gente, assim…No fundo, a gente tá enxugando gelo, falando com o CEO de hoje. Tem gente que adere e tem gente que não adere. E eu acho que assim, trazer também uma linguagem para não ser uma coisa… que geralmente o mundo da sustentabilidade e que eu gosto muito do que a Lea e a Carla, do que jeito que elas abordam, porque não fica aquela coisa hippie, porque não dá para chegar nesse lugar que tem que ser… Com o CEO você não fala desse jeito. E eu acho que uma coisa importantíssima é não querer que os projetos sejam só seus, né. Trazer colaboração. Então assim, é trazer, somar…e à medida que você soma, você acaba multiplicando no final. Então também parar com essa coisa do “É meu, é meu, ah não isso é meu, isso não dá” É sobre você ou é sobre o projeto?

Raquil: Tentando ser do movimento do compartilhado, entendendo que cada um tem que ter o seu lugar, mas é isso, quanto mais gente, a gente tá mais uma vez nessa roda tentando fazer com que mais gente junta faça outras pessoas enxergarem um novo caminho, né. É isso..

Maria: E a terceira coisa que bateu agora é ensinar essas crianças, porque elas vão estar aí daqui a pouco. E não é daqui a muito pouco, é daqui a bem pouco.

Raquil: Quando chamaram a Má na escola, eu falei “Má, a gente tem que montar um curso para as crianças, pra eles entenderem que é simples, eles já estão aí prontos para ouvir, eles não têm esse medo, pavor, de separar lixo igual nossos pais têm. Eles são vetores do bem”.

Carol: Muito obrigada pelo tempo de vocês novamente.

Maria: Obrigada a vocês.

Raquil: Imagina, obrigada a vocês, que honra, muito gostoso poder aqui conversar com vocês. Obrigada mesmo pelo convite.

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