Roupa reciclável? Coleção Ciclos da C&A é o primeiro produto têxtil 100% brasileiro com certificação Cradle to Cradle

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Modelo vestindo jaqueta jeans com a frase "The Future is Ours" nas costas, um exemplo de roupa reciclável da C&A.
Roupa Reciclável. Fonte: C&A

Quando a gente lançou o livro digital com 28 estudos de caso de design e inovação para a economia circular, um dos cases que mais despertou a curiosidade dos leitores foi o da C&A. A empresa já tinha lançado, em 2017, uma coleção de camisetas desenhadas para o ciclo biológico, com fornecedores internacionais e certificação Cradle to Cradle. Já a  Coleção Ciclos, lançada em 2020, trabalha com o conceito de roupa reciclável, desta vez em peças jeans produzidas com uma rede de fornecedores 100% brasileira. Assim, se torna o primeiro produto têxtil nacional reconhecido pela certificação Cradle to Cradle no nível Gold (Ouro).

Esse é um feito significativo, considerando a exigência dos critérios Cradle to Cradle, especialmente nesse nível elevado de certificação, que leva em conta a Saúde e Ciclabilidade dos materiais, além da Gestão de Água, Energia e Justiça Social em toda a cadeia.

Ele também abre um precedente muito inspirador. Afinal, a indústria da moda, especialmente a partir do modelo fast fashion, é uma das mais poluidoras, com resíduos que se acumulam em diversas partes do planeta, de Gana ao deserto do Atacama. Nesse contexto, pensar em roupa reciclável pode ser uma boa solução. (Ainda que não a única, já que se pode também considerar outros modelos de negócio – como é o caso da marca holandesa Mud Jeans, que já foi assunto aqui no blog).

Dúvidas, dúvidas dúvidas…

De qualquer forma, o case da C&A gerou muitas dúvidas nos nossos leitores: Quais são as inovações técnicas que permitem que essa coleção seja considerada saudável em termos de materiais? É um caso de roupa reciclável ou compostável? Como a C&A consegue manter o custo competitivo das peças com todo esse investimento em inovação e certificação? E as outras linhas da empresa? Também seguem critérios de sustentabilidade, ou é só essa? Como saber se é inovação circular de verdade, ou só greenwashing?

Para tirar essas dúvidas, a Léa conversou com o Marcelo Lobo, gerente de segurança química e materiais sustentáveis aqui na C&A Brasil, e responsável pela gestão ambiental na rede de fornecimento da empresa. 

Durante a entrevista, ele contou mais detalhes sobre as iniciativas da empresa, e esse jeito melhorado de fazer moda. Especialmente, quais foram as escolhas diferentes que permitiram a criação dessa linha e a conquista da Certificação Cradle to Cradle™. 

Assista às 5 partes da entrevista no player abaixo – você pode passar de uma parte à outra mudando de abas! 

E, se quiser, também pode ler a transcrição completa da entrevista logo abaixo, e deixar seus comentários e feedback!

1 – Trajetória circular da C&A e fornecedores no Brasil

No primeiro vídeo, Marcelo Lobo conta como foi a introdução da economia circular na C&A. Ele diz que a sustentabilidade já estava presente antes da coleção Ciclos ser lançada e coloca a certificação C2C como o desfecho de um ciclo. A ajuda dos fornecedores foi essencial, porque também precisaram entrar nas normas da certificação.

 

“Sim, nós tínhamos produtos com princípios de circularidade muito fortes, mas você tem que certificar para poder sair falando sobre eles.”

Lá fora as empresas são mais verticalizadas, então você aplica o conceito uma vez só dentro da empresa. No Brasil não, você tem que aplicar o conceito para o fabricante do tecido, o conceito para a empresa que está fazendo a costura, fazendo o bordado, fazendo a estampinha, fazendo o processo da lavanderia (quando nós falamos do jeans), então você aplica e tem que fazer as validações em diversas fases”.

2 – Saúde e ciclabilidade dos materiais

Nesta parte Marcelo conta  sobre os detalhes e inovações da Coleção Ciclos para garantir a aprovação nos critérios da certificação para saúde e ciclabilidade dos materiais, do elastano às linhas utilizadas, e com destaque ao corante índigo desenvolvido por uma empresa brasileira também certificada pela C2C ™.

 

“Esse corante índigo foi desenvolvido sem metais pesados e sem aminas carcinogênicas. […] Existia só uma empresa no mundo produzindo esse índigo. […] Então você vê que no Brasil você tem muita tecnologia, você tem empresas nacionais muito capazes, basta elas serem provocadas e terem, lógico, um respaldo e incentivo de que vamos utilizar.”

“É muito detalhe, mas a indústria química é totalmente apta e preparada para atender. Tanto é que nós conseguimos fazer e com fornecimento nacional, então é algo que nos orgulha muito.”

3- Água e energia

A produção têxtil utiliza muita água, especialmente quando se trata de jeans. Na terceira parte, Marcelo fala sobre o não-desperdício da água e o que é feito para preservar as suas características mais importantes. A maior parte é reutilizada – e o que não é, não gera impactos negativos para o meio ambiente.

 

“Olha, quando você cuida do input, quando você cuida da entrada, já tem produtos químicos corretos, processos equilibrados, processos inteligentes e pensados para a economia de recursos, automaticamente o resto acontece. […] Então se você já está cuidando na entrada, isso não requer uma alta tecnologia, nova, para se ter uma água com excelente qualidade na parte final. Uma água que não mude a característica do corpo receptor, que não tire a potabilidade daquela água para o uso.”

4 – Relação com o consumidor

Nessa parte, Marcelo Lobo apresentou uma perspectiva importante: o consumidor como protagonista das mudanças que acontecem nas indústrias e comércios. Quando escolhemos ou não um produto, estamos dizendo a quem o fabrica e fornece se entendemos, gostamos e/ou aceitamos aquilo. Estamos financiando e incentivando o processo. Ele fala também sobre os custos da confecção das peças, o preço acessível que é passado aos consumidores e responder ao questionamento sobre o modelo fast-fashion que a empresa (ainda) segue.

 

“As marcas no geral não colaboram com o consumidor nesse entendimento. Gera-se muita confusão. Parece que é uma disputa. “Ah, o meu produto é o jeans mais sustentável do mundo”, mas não diz o porquê.”

Porque quem manda na gente, não é a gente, é o consumidor. O consumidor, se ele não  entende aquele produto, ele simplesmente responde com a não-compra.”

5 – Dicas para empreendedores

Para finalizar, Marcelo compartilha dicas especiais para os leitores que têm ou querem começar um negócio ou empreendimento circular.

 

“Você tem que entender onde você está, onde você chegar, qual o gap disso e começar a trabalhar um a um. Às vezes não dá pra trabalhar com todas as frentes ao mesmo tempo porque você é pequeno, mas começa a trabalhar com a mais importante.”

Contexto

Vale a pena notar que essa conquista vem alinhada a toda uma atuação global da C&A, que reconhece a circularidade como um dos 5 temas de maior importância estratégica para a empresa. 

Entre outras iniciativas interessantes, que não foram o foco da entrevista, a gente destaca aqui algumas

Em 2020, 90% do algodão utilizado nos produtos comercializados estava classificado como algodão mais sustentável e eles possuem a meta de chegar aos 100%. Para ser considerado “mais sustentável”, os fornecedores precisam seguir critérios socioambientais e existe todo um cuidado com a gestão dos produtos químicos usados, diferentemente do algodão usado convencionalmente. 

O movimento #VistaAMudança, tag que identifica os produtos mais sustentáveis das lojas, ajudando o cliente a direcionar suas escolhas também nesse sentido.

Outra iniciativa que complementa a circularidade das peças é o Movimento ReCiclo, que garante o recolhimento de roupas nas lojas da C&A. As peças são encaminhadas para doação (se estiverem em bom estado) ou enviadas para a empresa de logística reversa Retalhar, para que sejam recicladas ou reutilizadas em outros processos. Já existem quase 200 pontos de coleta presentes em todos os estados do país e tudo que é recolhido é devidamente documentado.


Transcrição da entrevista com Marcelo Lobo (C&A Brasil)

Trajetória circular da C&A e fornecedores no Brasil

Léa: Olá, bom dia. Eu to aqui com o Marcelo Lobo. Ele é responsável pela área de materiais e gestão ambiental na rede de fornecimento da C&A. Ele veio aqui contar um pouquinho como que foi o processo da C&A, da certificação Cradle to Cradle, ele veio aqui trazer mais detalhes né… tiveram muitas perguntas depois dos 28 estudos de caso, então a gente convidou ele aqui pra responder a gente, as nossas curiosidades e saber como que ta esse movimento lá na C&A. Bom dia, Marcelo. 

Marcelo: Bom dia, tudo bem? Maior prazer estar aqui falando sobre esse tema, ta? Nós gostamos muito de estar compartilhando realmente esta questão, informações de forma geral. Então vamos lá… vai ser um bate papo bem legal!

Léa: Legal. Bom, então assim, primeiro obrigada pelo seu tempo e pela sua disponibilidade! Queria começar com você contando um pouco dessa história da C&A né. A gente sabe que, em relação ao Cradle to Cradle, a gente vem acompanhando há bastante tempo, primeiro chegou uma linha de camisetas compostáveis, que veio importada né? E aí depois passou pra fabricação nacional de uma linha de jeans, certo? Aqui no Brasil. Então eu queria que você contasse um pouco como é que foi esse processo interno da C&A, como foram as decisões que foram tomadas rumo a isso. Se puder contar um pouquinho…

Marcelo: Claro, com o maior prazer. Realmente nós fizemos uma primeira entrada com um produto nacional, o primeiro produto têxtil globalmente certificado com o nível Gold. Então a camiseta já nasceu dentro dessa proposta de um nível mais elevado, contemplando todas as questões dentro do programa, dentro da certificação, desculpe. Então foi todo um processo que não começa exatamente na camiseta, começa muito antes. 

Para você conseguir ter uma rede de fornecimento apta a atender todos esses requisitos, as questões ambientais, sociais, de materiais, de produto e de produção, elas já têm que ser pensadas antes. E a C&A sempre teve programas – isolados, tá? Lógico, dentro do mesmo contexto, porém isolados, cuidando de cada um desses tópicos. 

Aqui no Brasil então eu cuido de materiais e da parte da gestão sustentável da rede de fornecimento, mas tem o Rodrigo que cuida justamente das questões sociais, nós temos uma outra… enfim… nós temos uma equipe toda cuidando de diversos segmentos. Isso gerou o quê? Uma base para que pudéssemos certificar essa rede de fornecimento, esses fornecedores, para se obter o quê? Um produto realmente circular. 

E falar que a C&A não tinha produtos circulares antes: Sim, nós tínhamos produtos com princípios de circularidade muito fortes, mas você tem que certificar para poder sair falando sobre eles. 

Simplesmente você sair falando, ok, pode até ser verdade, mas é muito difícil alguém ir lá  e conseguir ver e comprovar. Então a certificação na verdade, ela foi o desfecho de um ciclo que nós queríamos realmente falar “olha, será que a gente conseguiu? Vamos ver, vamos entender então o que tem então… se nós vamos conseguir atender a esses protocolos”. 

Então nós buscamos isso, tá? Algo realmente de um alto nível, que não atende somente a têxtil, ela atende diversas outras áreas, de forma muito, vamos dizer assim, similar em termos de quesitos. Então são os mesmos valores, isso é muito importante. Então a têxtil não teve algo facilitado, ela atingiu os mesmos quesitos requisitados por outras áreas e a complexidade da têxtil é um pouco maior que algumas.  

A têxtil, ela tem toda uma questão de distribuição, cada parte da indústria, ela faz um processo, principalmente no Brasil. Lá fora as empresas são mais verticalizadas, então você aplica o conceito uma vez só dentro da empresa. No Brasil não, você tem que aplicar o conceito para o fabricante do tecido, o conceito para a empresa que está fazendo a costura, fazendo o bordado, fazendo a estampinha, fazendo o processo da lavanderia (quando nós falamos do jeans), então você aplica e tem que fazer as validações em diversas fases. 

Essa complexidade para o Brasil foi um grande desafio, ta? Realmente conseguir todos dentro do mesmo escopo, dentro do mesmo parâmetro, num curto período (porque foram basicamente 12 meses aí, para se fazer tudo)… É lógico que nós fizemos pré-estudos, nós já tínhamos todas essas ações de químicos com o ZDHC e avaliação de sustentabilidade da cadeia com o sistema Apparel Coalition com o Higg Facility Environmental Module, com o nosso programa social também já cuidando de todas as questões. E sempre a C&A foi além das questões legais. Ela sempre buscou algo mais, em padrões globais, porque a C&A, apesar de ter uma brasilidade tremenda, ela é uma empresa global, tá? Ela se identifica muito com as questões “Brasil”, mas ela é uma empresa global. Então, a maior dificuldade em se obter foi justamente esta questão.  

Todo mundo pergunta “ah, foi conseguir a matéria-prima?” Não, não foi. “Ah, foi conseguir os produtos químicos?” Também não, tá? 

A questão foi realmente a complexidade, até mesmo  para a empresa de assessoria, em juntar todos esses documentos, todas essas evidências e fazer o processo se mover como um todo, na mesma velocidade, tratando com quatro, cinco, seis empresas para gerar um produto. 

Léa: Eu tenho visto que para as grandes empresas, um grande obstáculo aqui no Brasil é justamente conseguir essas informações com os fornecedores, né? Então como foi esse diálogo com eles? Como que eles se abriram pra falar do que eram feitas as coisas – foi uma coisa, assim… tranquila ou…? Como foi essa comunicação com os fornecedores da cadeia? 

Marcelo: Olha, a comunicação foi bem tranquila porque nós fizemos de forma estruturada. Eles não partiram do zero, como eu disse. Todos já tinham uma cultura implementada e conhecendo também a cultura da C&A nessa questão de sustentabilidade de forma mais holística, de forma mais ampla, onde não se olha somente…

Léa: Por passar informação, né? Tudo. 

Marcelo: Aham. Quando nós explicamos, lógico, gerou uma certa ansiedade, lógico. Evidente, né? “Poxa, mas é tudo isso? É além dos que nós já estamos fazendo?” 

Falei: sim, é além. Nós temos  que dar um passinho a mais para nós conseguirmos fazer. Mas nós demos muita clareza, a C&A trabalha com muita clareza. Então nós mostramos como era todo o programa, a empresa de assessoria fez várias reuniões com essas empresas de forma preparatória e daí nós partimos mesmo pra mão na massa, como nós costumamos fazer né. Então muitas coisas foram corrigidas durante o trajeto, muitas melhorias foram promovidas…

Léa: Vocês mantiveram os mesmos fornecedores? Vocês não tiveram que fazer nenhuma troca, eles toparam se adaptar à certificação que a gente sabe que é bem criteriosa, ainda mais no nível Gold?

Marcelo: É, eles toparam, eles tiveram bastante tranquilidade quando nós fizemos um… uma pré-verificação, ta? Daí eles se tranquilizaram que eles viram que, realmente, até foi uma surpresa, porque geralmente as pessoas não olham pra parte holística, cada um olha para um pedacinho né? E quando eles viram que juntando tudo aquilo eles já tinham praticamente um todo, eram pequenas evoluções somente a serem feitas, é… foi uma grata surpresa e todos ficaram empolgados aí em, é… dar essa continuidade. 

Léa: Legal.

Marcelo: A questão de produtos químicos era uma preocupação tremenda dentro da indústria porque fala “poxa, mas será que meus produtos químicos atendem?” Eu falei “Sim! Nós já temos o programa ZDHC, tem umas exigências a mais além do programa porque a parte interessante é essa: tem a questão de sustentabilidade e a questão de economia circular. Sustentabilidade são pequenos bloquinhos que incorporam a parte da economia circular, e a economia circular vai além. A sustentabilidade, ela vê até a questão ambiental da produção do produto, economia circular vai além, vai no pós-uso. Então, é, esse… o produto químico utilizado aqui pelo programa ZDHC realmente ele não gera nenhum impacto ambiental durante o processo produtivo e na questão do output, na saída da empresa, mas não se mede a questão desse impacto do produto aplicado na peça pronta. E o C2C, ele verifica esse tópico, então é um passo além, é uma questão a mais aí para você poder falar de circularidade e mesmo sendo no ciclo industrial, que foi o ciclo que nós optamos porque, é… porque que a C&A conseguiu fazer o ciclo industrial? 

Isso é algo bem interessante. Também é um tijolinho construído lá atrás, nós temos o ReCiclo, movimento ReCiclo que é o que? O recolhimento de peças nas lojas pra que essas peças depois, através de parceiros, tenham a destinação correta para não ir pro meio ambiente. Então a lógica era essa: você fazer peças para serem retornadas. 

Então nós temos o meio de retornar e o end game de tudo isso já está em andamento, é justamente poder falar: “Olha, esta peça aqui retornou, virou esse fio que virou essa outra peça de novo aqui.”

Saúde e ciclabilidade dos materiais 

Léa: Indo um pouco então pro processo, conta um pouco… porque o denim, a fabricação é conhecida por ser bastante agressiva né, com relação ao meio ambiente. Enfim, às vezes tem metais pesados… eu queria entender um pouco, se vocês passaram por essa certificação eu imagino que o novo… a nova linha, ela é livre de metais pesados né? ou das substâncias restritas né, que a certificadora coloca? Como isso funcionou? Quais são as inovações que você acredita que essa linha tem em termos de materiais?

Marcelo: Poxa, essa parte aí é a parte mais divertida né, pra se falar. Como eu disse, essa história começou antes, através  justamente da gestão ambiental da rede de fornecimento. A questão de cuidado com produtos químicos que contivessem substâncias nocivas,  bioacumulativas, carcinogênicas, disruptoras endócrinas e todas as outras coisas que nós já sabemos… então através desse cuidado, a nossa rede de fornecimento já tinha, digamos assim, produtos aptos a serem classificados como produtos da lista, da lista dentro dos quesitos que são muito mais rigorosos que o C2C nos pede. 

Então o princípio foi, a princípio, não alterar o processo produtivo, enviar para a validação esses produtos que eram utilizados e entender se eles se enquadravam ou não dentro da necessidade para nível Gold, que a ideia sempre foi nível Gold, sempre foi puxar para os extremos. 

Léa: E a coloração da peça, ela também é pro ciclo biológico? Como que funciona? Queria também entender um pouco do retorno né, do pós. Porque você fala que vocês coletam… naquela coleção das camisetas tinham aqueles videozinhos né, da camiseta e tal e o jeans na verdade a gente ficou um pouco confuso se era compostável, se não era. Pra entender qual a relação da tinta…

Marcelo: Quando a gente fala da tinta… Entendi completamente. Puxa, é legal, super legal essa diferenciação, foi algo que a gente pensou bastante para entender pra que caminhos nós iríamos… o compostável, ele segue uma regra muito, muito, muito clara e restrita, tá? em três meses tem que biodecompor e tudo mais. 

Agora, falar o jeans ele é… se ele for ao meio ambiente, tudo que está lá não vai gerar dano nenhum ao meio ambiente, o metal que está lá no jeans (tem um metal no jeans), esse metal no jeans,  ele é um metal correto, ele não gera dano ambiental, mas ele não é compostável. Porquê? Porque ele não vai biodecompor em três meses. Mas se eu deixar cair lá na floresta amazônica, fui passear lá na floresta amazônica e deixei cair a camiseta compostável e a calça jeans do ciclo industrial, os dois não vão gerar impacto dentro daquele lugar que ela caiu, então você vai ter ali flora e fauna totalmente preservados da mesma forma. 

A diferença é que a camiseta vai desaparecer em três meses e a calça vai ter lá, alguns elementos que vão demorar um pouco mais. Por isso o ideal é voltar para o ciclo industrial, onde o metal é reaproveitado, onde a fibra é reaproveitada, onde tudo volta. Porque o algodão que o jeans é costurado… desculpa, a linha de costura do algodão, do jeans ela é de algodão, ela utiliza os mesmos corantes, os mesmos princípios, é, da linha de orgânicos. 

A diferença no jeans é que permite um percentual muito baixo de um elastano, também correto, tá? E esse elastano não tem esse princípio de biodegradabilidade tão rápida, porém não gera dano ambiental. Se a pessoa fez a disposição errada, não colocou na urna da C&A e resolveu, hoje ninguém mais joga, lógico, em um terreno baldio nem nada, mas digamos que a pessoa foi inconsequente e fez isso, aquele produto não vai ter amina carcinogênica, não vai metal pesado, não vai ter nada que gere dano e a parte que demora mais para se recompor, ela é pequena, porque a certificação controla isso no nível Gold. Eu tenho o máximo de participação de um metal, tá? De um botão, dentro do peso total, escopo total da peça, então não é assim livre para se fazer… e essa questão do metal também ela foi bem restrita, não tem N estilos, a gente conseguiu dois metais que eram aptos a atender todos os requisitos do C2C, então… não sei se ficou claro pra você a diferença ou…

Léa: Ficou, ficou claro. Eu fiquei só com uma dúvida que é a composição do tecido mesmo né, você falou que tem algodão com um pouquinho de elastano…

Marcelo: Na verdade tem 100% algodão e tem uma linha onde entra um percentual muito baixo do elastano, esse elastano é da Invista, esse elastano é validado também (lógico, tem que ser) pelo C2C com relação a agentes nocivos, tem uma quantidade de material reciclado desse próprio elastano nele mesmo, enfim… ele atende uma série de princípios. Só que esse pequeno percentual, ele está dentro do que é permitido pela certificação Gold. 

Porque tem uma questão de uma baixa aceitação do jeans 100% algodão, mesmo fazendo um jeans mais leve, então nós tínhamos que ter um produto, já que a certificação permitia… também foi um desafio conseguir o elastano, conseguir manter essa composição, conseguir mexer na estrutura e na engenharia de todo tecido… não é simplesmente incorporar né, tem todo aí uma engenharia, tem toda uma inteligência por trás, então foi muito complexo colocar um pouquinho de nada de confort num tecido jeans com todas as exigências do C2C.

Léa: Imagino. É um desafio mesmo. E o corante? O corante que vocês usam é o corante orgânico mesmo, que você comentou que é igual ao da camiseta?

Marcelo: Vamos lá, vamos lá. O corante índigo, ele não é o corante que vem da planta, tá? Ele é o corante sintético sim, só que esse corante, é porque a fórmula na verdade, o princípio químico da planta e do químico, ele é… um é cópia do outro né, mas existe o processo industrial. Só que nesse processo industrial tem o quê? Tem o problema das aminas carcinogênicas, fora o metal pesado, tem o problema das aminas carcinogênicas do que? De um corante índigo tradicional. 

Esse corante índigo foi desenvolvido sem metais pesados e sem aminas carcinogênicas e o mais interessante é que o produtor desse corante índigo é uma empresa brasileira, 100% nacional, é a Bann que se propôs a falar “olha, é… então nós vamos fazer esse indigo sim, pra vocês utilizarem”. Existia só uma empresa no mundo produzindo esse índigo e a Bann desenvolveu e, lógico, a própria Bann falou “não, eu não vou usar o processo de certificação da C&A, nós vamos lá e vamos certificar esse corante junto do instituto C2C”. E eles fizeram isso num tempo recorde. Então você vê que no Brasil você tem muita tecnologia, você tem empresas nacionais muito capazes, basta elas serem provocadas e terem, lógico, um respaldo e incentivo de que vamos utilizar.

Hoje tem muito mais empresas produzindo índigo no Brasil, já utilizando esse corante sem metais pesados, sem anilinas, sem aminas carcinogênicas na anilina, que é ecologicamente correto, muito melhor. 

Os outros produtos químicos também, até o amaciante, que pode parecer algo simples, ou a goma utilizada no… é no… no índigo né para que ele possa ser cortado e costurado, parece simples, mas não! São aspectos que tem que ser muito bem analisados e eles também não podem gerar subderivados, sub reações químicas que vão gerar um produto nocivo, então não é só o produto químico, é a combinação desse produto químico no processo, se essa combinação são dois produtos químicos bonzinhos (vamos chamar assim, tá? pra ser simplista), mas eles juntos, eles podem gerar um que não é bonzinho, ele pode gerar um que realmente gera dano ambiental ou gera dano à saúde. 

Então esse princípio também da questão de compatibilidade do produto durante o processo, durante todo o processo produtivo… então não é somente “Eu fiz o índigo, ah, o índigo está bonitinho, está correto. O tecido jeans está aqui.” Mas e quando levar pra lavanderia? Os produtos da lavanderia também têm que ser corretos e compatíveis que não vai reagir com nada com esse tecido que gere uma substância nociva nesse meio. Então olha o nível de cuidado!

É muito detalhe, mas a indústria química é totalmente apta e preparada para atender. Tanto é que nós conseguimos fazer e com fornecimento nacional, então é algo que nos orgulha muito. 

Léa: Acho até aqui que você deu uma dica do que a gente conversou logo no começo. Sobre como é que foi a influência na cadeia de fornecimento… Mas aí você tá falando que já teve um fornecedor de vocês que também começou a seguir os critérios. Foi lá certificar. Então acho que já traz também essa força da C&A nesse movimento

Marcelo: Eu acho que… Tudo bem, a C&A lógico que ela tem uma influência, mas aí é uma questão de convencimento mesmo das empresas. Nós expusemos os fatos e as empresas entenderam que realmente era o futuro. Que realmente era necessário. Que realmente tinha que se começar de algum modo porque se não, não ia chegar em lugar nenhum. Dar os primeiros passos… Então eles assumiram essa cultura, eles assumiram esse  compromisso junto conosco. Então não foi porque a C&A como cliente exigiu e pediu. Não funciona, nesse formato não ia funcionar. 

Eles incorporaram realmente o conceito e vivenciaram o dia a dia, viram todo o trabalho árduo que dá para se fazer, mas tiveram prazer nisso. Por quê? Porque eles  estavam fazendo algo melhor, estavam experimentando, estavam inovando. É algo que ninguém tinha feito, então é desafiador e eles gostaram do desafio. Eles acreditaram na gente, viram que realmente tinha um princípio científico por trás. Não era só uma certificação bonitinha, ela verdadeiramente tinha todo um peso, tinha toda uma cultura. Começou na década de 80 essa história. Você sabe muito melhor que eu, com certeza, porque você é especialista no tema. Eu conheço o tema dentro da área têxtil, na implementação dentro da área têxtil e na nacionalização das coisas, mas começou muito antes. 

Olha os princípios, olha o conceito, olha o tanto de desenvolvimento que teve por trás do instituto, para realmente poder falar “esse é o produto mais sustentável do mundo!”, entende? Tem todo um… Aí o pessoal fala “ah, mas o que eu faço não era suficiente?” Falo: é acima da média, mas ainda não. Tem mais um pouquinho.  

Léa: Um pouquinho…

Marcelo: Uhum. 

Léa: Legal. É a história da melhoria contínua, né? Sempre pode um pouquinho a mais. Legal.

Marcelo: Vem de encontro ao P+L- Produção mais Limpa, da indústria 4.0, entende? Então na verdade nada é separado. Tudo acaba sendo parte do todo. Quando a gente olha em fractais assim, tudo acaba sendo parte do todo. Então não existe “aconteceu porque aconteceu” de forma sozinha. Tinham outros princípios que não estavam conectados, outras colaborações que não estavam juntas, que quando você colocou juntas, você tornou isso possível.

Água e energia 

Léa: Deixa eu te perguntar, você falou dos efluentes e me lembrei da questão da água. A questão da água é muito comentada na fabricação do jeans. O que tem de diferente na linha de vocês?

Marcelo: Olha, quando você cuida do input, quando você cuida da entrada, já tem produtos químicos corretos, processos equilibrados, processos inteligentes e pensados para a economia de recursos, automaticamente o resto acontece. Então não tem mágica. Se parte de produtos químicos ruins, você vai ter uma qualidade ruim de efluente. 

Então se você já está cuidando na entrada, isso não requer uma alta tecnologia, nova, para se ter uma água com excelente qualidade na parte final. Uma água que não mude a característica do corpo receptor, que não tire a potabilidade daquela água para o uso. 

Tem dois caminhos: as pessoas confundem. Os dois, na verdade, devem caminhar juntos. Um é a economia da água, que deve ser e é pensada. Depois nós entramos com um pouquinho mais de detalhes nesse tópico. O outro, é que a água que a gente tem na Terra hoje, é a água que a gente já tem na Terra há milênios. Não tem nova água. A água se recicla. Então você não pode tirar da água a característica dela poder se reciclar, tirar a potabilidade. 

Quando você incorpora o elemento carcinogênico bio persistente, você tirou a característica daquela água de se regenerar, vamos dizer assim. Dela ser reutilizada, entrar de novo no ciclo dela, no ciclo de consumo. Porque aquela água, você pegou um bem precioso e transformou ele em inutilizável. E nós estamos fazendo isso, como indústria (como um todo, não só a têxtil), nós estamos fazendo isso hoje. Nós causamos esse impacto, incorporando essas substâncias nos mais diversos aspectos. Pensando na certificação, pensou-se aqui na entrada e lógico, a gestão é muito importante. É o processo né. Então é a entrada, processo e saída. O processo é muito balanceado, muito equilibrado e muito correto. A gestão da estação… a estação está projetada, está balanceada, está correta para atender todas as questões. Você tem um impacto totalmente nulo nessa saída. 

Na verdade, até na questão da água… vamos falar do processo da lavanderia. Porque a indústria têxtil, pelo tamanho, pelo porte que ela tem, ela já é muito mais estruturada do que a média das outras empresas dentro da rede de fornecimento têxtil. A lavanderia geralmente é a parte mais atacada, pelo uso de produtos químicos, pela quantidade de uso de água…. só que durante o processo que começou lá com ZDHC, de melhoria para atender os parâmetros do ZDHC, foram feitos tantos processos de investimentos nessa área, de melhoria, de treinamento de pessoas, conscientização e tudo mais que essa água se tornou reciclável.

Então 80% dessa água, porque tem perdas e uma série de coisas, hoje elas voltam para o processo industrial da lavanderia. Porque você tem uma captação, essa captação tem um custo. O tratamento dessa captação tem um custo. Depois você tratava e descartava de novo, entende? Você está perdendo dinheiro fazendo isso. Se você tem uma qualidade de água excelente, você simplesmente não capta do meio ambiente. Você volta ela para o ciclo e só repõe essa diferença. E o pouco que você descartou, ela tem que ser descartada, sim, em condições justamente de não causar esse impacto e tirar a água se reciclar.

Então todos esses aspectos são pensados, mas não foi nada assim, de alta complexidade porque já está inerente na legislação, já é necessário ser feito. Bastou um olhar mais criterioso sobre o tema. Um pouquinho mais de detalhes em alguns pontos. 

Léa: Legal. E também fiquei curiosa um pouco sobre a questão da energia. Como que o instituto lidou? Não sei se vocês tem produção em loco ou se eles consideraram a matriz hidrelétrica, com renovável. Como que foi isso?

Marcelo: Não. Poderia considerar, mas nós não temos um relatório, como país, por região. Nós sabemos o geral do país, tá? Que acima de 80% vem de fonte renovável, a maioria hidrelétricas. O instituto olha pra hidrelétricas de baixo impacto, que são as de pequeno porte, mas nós não tínhamos separado. Então nós tínhamos de tudo. 

Como eu falei, a certificação não foi para duas empresas, a certificação foi para um número grande de empresas envolvidas, então cada uma tinha a sua particularidade, cada uma tinha a sua história. Então nós tivemos empresas que sim, tinham lá a geração de energia de forma comprovada. Outras, tinham um contrato de fornecimento direto com uma hidrelétrica de pequeno porte.  Então tinha esse contrato que já fazia toda a vez da questão. E teve empresas que em parte tinham alguma coisa de energia solar, mas não era suficiente, aí se faz a compensação com hex. Então nós tivemos um pouquinho de cada coisa aí dentro desse contexto. 

Agora, se nós tivéssemos um relatório nacional por região da distribuição, nós poderíamos entender melhor o que provinha de renovável ou não. O sul do país, mesmo, eles recebem uma carga enorme proveniente da queima de biomassa que vem do Paraná, energia eólica de uma outra região litorânea e energia solar de algumas fazendas solares que tem também na região. Eles têm um percentual maior, mas a gente não consegue comprovar também o quanto contém porque não existe um relatório nacional que nos dá esse mapa.

Relação com o consumidor

Léa: Como que você vê isso? Porque a C&A está sendo pioneira aqui no Brasil neste processo de certificação e mesmo na economia circular. Ela tá mostrando que de fato quer levar a sério o processo. Então queria saber como a C&A está entendendo o processo de forma mais ampla.

Porque sempre tem que começar de algum lugar, vocês começaram antes um pouco com a C&A internacional, agora veio essa linha aqui no Brasil. E quais são os próximos passos? Como vocês estão se planejando pro futuro e como foi a aceitação também?

Porque uma questão que a gente vê um pouco com as empresas é “olha, eu tenho essa jeans que é saudável e etc”. E as pessoas perguntam: “E o resto? Então você está dizendo que o resto não é?”. Como vocês lidam com essa cobrança do público, sabendo que é um processo de transição?

Marcelo: Vou começar pelo fim. Vou começar falando da interação com a questão do público. Todo produto da C&A, ele tem algum princípio de sustentabilidade ali embutido nele.

Nós estamos ainda aprendendo, nós não temos a menor ideia, quer dizer, temos né. Isso é simplório demais. Claro que nós temos ideia, mas nós não temos a total compreensão do consumidor, do entendimento do consumidor, de como ele aceita esse produto, como ele entende essas diferenças. Porque, digamos assim, que as marcas no geral não colaboram com o consumidor nesse entendimento.

Gera-se muita confusão. Parece que é uma disputa. “Ah, o meu produto é o jeans mais sustentável do mundo”, mas não diz o porquê. Mostra lá o porquê: ah, porque eu usei um pouquinho de água só. Mas espera aí, o jeans é uma cadeia gigante. Não dá pra falar que porque eu usei um copo de água só na lavanderia que ele… ele tem um princípio de sustentabilidade aplicado que é a economia da água! Então outro fala um negócio, outro fala outro… e isso não traz clareza.

Teria que ter uma linguagem mais direta, uma linguagem mais simples, para que o consumidor pudesse começar a entender aqui no Brasil sobre o tema. Então quando a gente vem e fala sobre economia circular, um produto circular, um produto feito para ser reciclado, é baixa a compreensão. As pessoas não conseguem entender porque que ele é… não digo que é melhor, mas porque que ele é circular e os outros somente tem princípios de circularidade ou às vezes nem de circularidade, mas sim de sustentabilidade. Que também é diferente. 

Então calma que com o tempo as pessoas vão passar a entender melhor. Vão ter um outro índice de compreensão sobre o tema. Nós estamos trabalhando para isso, de forma bem coerente dentro da nossa comunicação. Nós explicamos muito bem o que nós divulgamos para que um dia a gente consiga chegar e realmente ter a total compreensão do que realmente é um produto circular e da necessidade de ter comprovação do que se está falando, entende? 

Porque (sem querer) pode até ser verdade dentro de cada empresa, de cada um, mas você pode cometer greenwashing, porque você não consegue comprovar. “Olha esse produto aqui tem algodão orgânico”, aí você vai olhar… 5% de algodão orgânico somente! São níveis diferentes nessas questões que têm que ficar muito claros.

Léa: E sobre o custo? Isso até foi uma questão. Quando a gente lançou o ebook dos 28 casos, a pessoa falou “ah, eu acho que a C&A é greenwashing. É impossível fazer tudo isso e manter o custo.” E eu falei: pode deixar que eu vou perguntar pra eles.

Marcelo: Eu vou responder, tá? Custo produtivo individual, ele é composto de diversas fases. A mão de obra de costura muda? Não, não muda. 

O custo do tecido: a empresa têxtil que fez a estrutura do tecido, que foi o Cedro, conseguiram manter o preço do tecido no mesmo valor de tecidos premium que eles têm. Então não passou do valor da tabela que eles têm. Lógico, tem o valor de um tecido premium, porque é um tecido premium. Não é um tecido que dá para fazer de  qualquer maneira, então eles retornam um produto premium por todo o processo e cuidado desde o algodão  dele. 

Então algumas questões nós mitigamos, nós conseguimos manter o mesmo preço. Só que tem o seguinte: tem o custo da certificação, tem o custo de algumas coisas que tiveram que fazer a compensação da parte de energia, taxas que tem que pagar para subir para o site… Então você tem gastos extras. Os metais custam mais caro, lógico. A linha custa mais caro também, pelo processo produtivo dela. O pessoal usa linha poliéster, fibra cortada que gera microplástico pra caramba! Pelo menos usasse filamento, mas tudo bem, não usam. Porque é mais barato. Nós estamos trocando por um algodão de fibra longa que passou por todo um processo de validação, que não pesticidas, tudo de acordo com o do Ecolabel, processo de tingimento diferente… Então não tem como essa linha custar o mesmo preço que uma linha de poliéster qualquer. 

Você tem sim pontos que ficaram mais caros, mas a C&A, por uma questão de princípios, manteve o mesmo preço no ponto de venda. O mesmo preço de um produto premium da C&A é o mesmo preço de um produto com uma certificação C2C Gold.

Agora, como é que você consegue reduzir esses impactos, que é o que nós estamos trabalhando agora? Aumentando a escala. Então esses custos, salvo o custo da linha (que é proporcional à quantidade de produtos, evidente) os outros são custos fixos. Você faz investimento e depois, quanto mais você produz, menor, ficam esses custos. Eles são diluídos. Pensando nisso, nós já colocamos o mesmo valor. Então custa o mesmo preço que um produto convencional de mercado e a C&A sempre trabalhou com preços acessíveis, apesar de ser um produto premium, ele não tem o custo de qualquer produto premium aí de mercado. Ele é mais barato até. 

Mas existem sim essas diferenças, requer investimento sim. Se fosse simplesmente não projetar pro futuro e trabalhar somente pensando em marge, ele seria um pouquinho (não muito), um pouquinho mais caro sim. E valeria, lógico. Vale só pelo trabalho que dá para fazer, mas o público não ia entender, o público nesse momento não está pronto e nós estamos aprendendo com esse produto. Tem todo um aprendizado para nós aplicarmos lá pra frente. 

Léa: Certo. Falando um pouco sobre mercado, eu sempre fiquei pensando que o fast-fashion (essa compra rápida, que toda estação muda e você quer comprar mais e tal) é um modelo de negócios, em termos financeiros, muito forte. Muito difícil você quebrar esse modelo de compras a todo momento. Vocês chegaram a discutir alguma coisa sobre isso? Sobre a questão do modelo mesmo, da gente ficar comprando roupa toda hora?  Como isso é abordado dentro da C&A?

Marcelo: Eu não sou a pessoa que cuida diretamente do tema, mas estou inserido dentro do contexto, claro. E sim, nós estamos tendo uma série de discussões sobre outras possibilidades, novas formas de negócio. Como todas as empresas mundiais, não só nacionais, estão discutindo e entendendo o novo formato de consumo, entendendo o novo consumidor, entendendo como nós podemos trazer isso. 

Porque quem manda na gente, não é a gente, é o consumidor. O consumidor, se ele não  entende aquele produto, ele simplesmente responde com a não-compra. Então muitas vezes, não digo que nós sejamos obrigados, mas para estar dentro do business você às vezes tem que atender à demanda e a necessidade do consumidor, e essa mudança é gradual. 

Nós estamos trabalhando nisso? Sim. Estamos pensando nisso? Evidente, não é de hoje. Mas tudo tem que ser incorporado e introduzido ao seu tempo. É um trem que não para e você tem que acoplar novos vagões, vagões melhores, dentro desse trem que você não pode parar. 

Então nós temos todas essas questões sim, sendo vistas/discutidas.  Algumas são até mesmo estratégicas, então eu não posso estar detalhando. Gostaria muito, porque é bem bacana, é bem legal! Nós estamos muito satisfeitos com os caminhos que nós estamos enxergando, só que infelizmente ainda não é o momento de falar sobre eles.

Dicas para empreendedores 

Léa: Bom, agora então pra fechar, Marcelo. A gente tem um público de pequenos empreendedores, tem muita gente inclusive da área da moda, da área têxtil. O que você tem pra falar para esse pessoal independente que ta querendo inovar, ta querendo fazer um impacto mais positivo dentro das pequenas marcas que eles estão desenvolvendo? Qual sua dica pra eles transformarem esses empreendimentos de forma mais circular, mais positiva, mais abundante?

Marcelo: Eu vou usar o slogan da camiseta que nós lançamos lá em 2017: Comece pelo básico. Você tem que gerar pequenos tijolinhos construtivos para depois ir evoluindo. Como nós fizemos, ta? Não saiu ontem e amanhã: “ah, quero uma certificação”. Não, nós fomos construindo pequenos tijolos, pequenos blocos construtivos. Como se fosse aquele brinquedinho Lego, né? Que a você depois vai juntando as partes e monta desde um navio a um avião, o que você quiser. 

Então você tem que começar a gerar essa estrutura, conhecer melhor a sua rede de fornecimento, estar mais próximo da sua rede de fornecimento, estar conversando com eles. Porque eles tem um hall tremendo também nessa questão do negócio deles… então como eles podem colaborar para trazer algo mais sustentável, como… dar o norte, falar o que você pretende! Porque se você não falar o que você pretende, eles não vão conseguir te ajudar, não vão conseguir te atender. Assim como nós tivemos que trazer a questão “olha nós vamos fazer um C2C nível Gold, certificação nível Gold aqui no Brasil”. Se eu começo essa conversa por aí, o que fala que “Não, não vou fazer isso não. Vai dar trabalho. Que volume você vai fazer comigo?”. Eu ia falar pra ele X e ele ia falar não. “Pra esse X eu não vou começar.”  

Então envolva, conte o que você pretende, porque é importante. Envolva esses fornecedores. Lógico, a gente depende de uma série de fornecimento, mas mantenha o maior volume de fornecedores dentro desse contexto e próximo. Tenha negócios com ele para que ele possa investir no que você precisa. Porque a recíproca tem que ser verdadeira. Não tem como você obter algo de alguém se você não ajuda essa pessoa a manter aquilo. 

Essa é a questão. Você tem que entender onde você está, onde você chegar, qual o gap disso e começar a trabalhar um a um. Às vezes não dá pra trabalhar com todas as frentes ao mesmo tempo porque você é pequeno, mas começa a trabalhar com a mais importante. E já começa a comunicar aquele princípio de sustentabilidade. Pode não ser ainda um princípio de circularidade, mas você comunica aquele princípio de sustentabilidade e vai evoluindo sobre ele. Construindo daí as outras pecinhas até você conseguir chegar e ter um produto verdadeiramente circular. 

Léa: Muito bom, perfeito! Muito obrigada, Marcelo, por todo esse conhecimento aqui  que você ta compartilhando com a gente e por todo esse tempo que você se disponibilizou. Gostei muito, achei muito interessante tudo o que você contou, todo o processo… acho que tem muita coisa nova que vocês estão trazendo, desenvolvendo, então parabéns aí pelo trabalho e é isso. Muito obrigada mesmo. 

Marcelo: Eu que agradeço. E agradeço em nome de uma equipe imensa que trabalhou para que pudéssemos realizar! Então eu posso agradecer em nome de todos, com certeza. E agradeço também pela iniciativa de vocês que colabora com o mercado para começarem a entender o princípio de circularidade, as pessoas entenderem e não cometerem por equívoco o greenwashing. Elas entenderem que tudo que elas fazem tem  que ter uma comprovação idônea por um terceiro, mesmo que seja algo pequenininho, não tem problema, dá pra ter! É economicamente viável e gera uma segurança e ajuda o consumidor a entender melhor e até ele mesmo, a melhorar a questão da educação própria com relação às questões ambientais. Então muito obrigado!

Léa: Obrigada!

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