Entrevista com Marcelo Ebert da YvY Brasil: limpar a casa sem sujar o planeta

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Marcelo Ebert, co-fundador da Yvy Brasil
Imagem: projetodraft

Marcelo Ebert é um dos fundadores da YvY Brasil,  uma marca brasileira de produtos de limpeza por assinatura que surgiu em 2018 para revolucionar o modo como limpamos nossas casas. Das cápsulas retornáveis aos produtos concentrados de fontes naturais, a YvY propõe uma solução inovadora e circular para um mercado tradicionalmente dominado pelo grande desperdício plástico e pelo predomínio de substâncias nocivas à saúde humana e ao planeta.

A Ideia Circular conversou com o Marcelo Ebert, CEO e co-fundador da YvY junto do José Luiz Majolo, para entender mais sobre a história da marca, seu modelo de negócio, os processos de fabricação e logística reversa, e sua visão sobre empreendimentos circulares no contexto brasileiro.

Por ser uma marca que nasceu digital, a YvY experienciou um grande crescimento nas vendas durante a pandemia do COVID-19. A preocupação com a saúde dos consumidores e meio ambiente, o aumento no consumo de produtos de limpeza e no uso de serviços de entrega a domicílio, por conta do distanciamento social, acabaram incentivando essa tendência abraçada pela YvY de adoção do e-commerce.

A YvY é também circular desde o seu início, com produtos pensados para o ciclo biológico, e embalagens para o técnico. A marca trabalha com conteúdos biológicos e naturais à base de terpenos para fornecer uma limpeza segura à saúde do consumidor e saudável à natureza – sem contaminação da água ou do solo. 

Já as embalagens da YvY entram na jogada com seu retorno ao ciclo técnico através da logística reversa. Os borrifadores de plástico são desenhados para serem duráveis e reutilizáveis, e as cápsulas dos concentrados são retornáveis e seu material é reprocessado continuamente em novas cápsulas. 

Borrifador e cápsula Yvy Brasil
Imagem: Yvy Brasil

Além disso, a solução dos produtos concentrados é bastante inovadora, já que evita uma demanda volumosa por plástico e transporte. O consumidor dilui a cápsula do produto dentro da sua própria casa, fazendo com que a YvY “não leve água pra passear”. Esse modelo de produção acaba reduzindo em 6 vezes a quantidade de plástico das embalagens YvY quando comparado às marcas convencionais do mercado.

“ nasceu muito desse absurdo que, na nossa leitura, é essa questão da linearidade da economia. E a gente se desafiou a criar um loop fechado pra resolver esse problema” – Marcelo Ebert

 
A gente dividiu a entrevista com o Marcelo em quatro partes:

Origem da YvY e composição dos produtos

Na primeira parte, o Marcelo compartilha com a gente a trajetória que deu origem a marca e as soluções circulares dos conteúdos concentrados, biológicos e de fonte natural que entram nas embalagens YvY.

 

Circularidade e logística reversa

Na segunda parte, o Marcelo fala sobre a embalagem e os critérios de design pensados na YvY. Ele explica sobre a circularidade do sistema dos borrifadores reutilizáveis e das cápsulas retornáveis, além de falar como funciona o sistema de logística reversa e reciclagem das embalagens.

 

 

Modelo de negócio e contexto brasileiro

Na terceira parte, conversamos sobre como a inquietação dos fundadores com o sistema linear de produção e consumo levou à busca de um sistema de “loop fechado” e à criação do modelo de negócio circular e por assinatura. Além disso, o Marcelo comentou sobre o recente aumento das vendas da YvY por conta das tendências de e-commerce e hábitos de limpeza reforçados pela pandemia.

 

 

Desafios do empreendimento circular

E, por fim, o Marcelo fala sobre os maiores desafios, obstáculos e vantagens de inovar e empreender para a economia circular no Brasil. Ele também traz como essa inovação fortalece a marca e finaliza com uma mensagem especial para aqueles interessados em seguir essa mesma jornada com seu negócio.

 

Se preferir ler ao invés de assistir, seguem abaixo as transcrições da entrevista. Depois de assistir ou ler, conta pra gente o que você achou nos comentários?  
 
livro digital gratuito: 28 estudos de caso design e inovação para a economia circular no Brasil e no mundo

 

Entrevista com Marcelo Ebert (YvY Brasil)

 
Carla: A gente adora o case da YvY, já acompanhamos há um tempinho. Se você puder contar um pouquinho de como foi a criação da YvY, como foi teu percurso, essa história.

Marcelo Ebert: Claro. É, a gente já tinha decidido largar nossas carreiras de mercado financeiro e trabalhar com alguma coisa ligada à sustentabilidade. Então a gente tinha tido contato com uma tecnologia que trabalhava com terpenos e tinha começado a desenvolver várias linhas de produtos ligadas ao mercado profissional. Então produtos de limpeza, produtos desinfetantes, produtos desengraxantes, industriais. A gente fez isso com a Terpenoil.

E aí mais ou menos em 2017, 2016… A gente começou a ser procurado por muita gente querendo fazer private label de produtos de limpeza. E aí a gente fez alguns e achou que era hora da gente desengavetar o projeto nosso de ter a nossa própria marca de produtos de home care, produtos de limpeza pra casa. E aí fomos estudar e aí pra fazer a longa história curta, como dizem os americanos, assim, tudo que a gente viu nada fazia sentido, era um negócio muito mal organizado. 

A categoria na nossa visão era cheia de absurdos. Tinham os absurdos dos ingredientes, os absurdos das embalagens, os absurdos do modelo comercial de você ter que ir até o local comprar produto de limpeza, carregar peso, depois estocar em casa, e depois gerar aquele monte de embalagem e você correr risco de ter alergia… E puxa, era uma confusão que na nossa visão não fazia nenhum sentido e completamente incongruente com o que o comportamento do consumidor moderno demandava. 

E a gente lia nas Euromonitors, nas Mintels, nos reports da Nielsen né, de comportamento de consumidor… Que tava preocupado com a questão ambiental de embalagens, tava muito preocupado com a questão de ingredientes… De entender mais aquilo que tava comendo, aquilo que tava usando como personal care, aquilo que tava usando como produto de limpeza. E um consumidor também muito ávido por comodidade.

E aí a gente olhava essas duas coisas e falava nossa mas, cara, um tá indo pra direita e um tá indo pra esquerda. Tem um buraco aqui no meio. Então vamos tentar ocupar esse buraco. E foi aí que a gente lançou a YvY, resolvendo esses problemas e esse gap entre o que o consumidor tava querendo e o que a indústria tava oferecendo. 

Carla: Então vamos falar um pouquinho mais disso, desses diferenciais da YvY. Tem uma questão que a gente sempre fala nessa metodologia Cradle to Cradle que a gente segue que é a saúde dos materiais. E os produtos de limpeza convencionais tem aí muitas substâncias que são nocivas pra saúde humana, pra saúde ambiental, que contaminam a água que a gente usa na limpeza. Então conta um pouquinho pra gente sobre esse conteúdo biológico dos produtos, quais são os benefícios. Se puder explicar também essa questão dos terpenos, da Terpenoil… Acho que as pessoas não conhecem muito essa fonte, o que que isso traz de inovação. 

Marcelo Ebert: Claro. Bom, vou começar então pelos terpenos e depois a gente fala um pouco sobre a toxicidade dos ingredientes, dos produtos que tão aí no mercado. Terpenos são substâncias, aquelas formadas de carbonos, hidrogênios e oxigênios naquelas ligações que a gente aprendia no segundo grau de química orgânica. Eles são responsáveis no meio natural por fazer a limpeza e assepsia da natureza. Por isso que você vai dar uma volta numa floresta e você sente aquele ar puro mesmo tendo tanta coisa ali em decomposição. Quem faz esse equilíbrio são os terpenos.

Existe uma infinidade de terpenos diferentes. Então a tecnologia que a gente tem de trabalhar com terpenos ela é bem flex, vamos dizer assim. Então ela pode usar vários tipos de terpenos. A gente usa muito terpeno cítrico, já que o Brasil é um grande produtor de frutos cítricos dessa cadeia, o maior produtor mundial. A gente usa terpenos de pinho, terpenos de eucalipto, citronela que é um outro terpeno. E a gente consegue com essa tecnologia potencializar algumas propriedades desses terpenos. E a partir disso a gente consegue fazer produtos que tenham eficiência competitiva, que tenham custos competitivos e que tenham escalas competitivas. Comparativamente com os produtos sintéticos do mercado.

Já tentando fazer um paralelo pra segunda parte da pergunta e traçar uma diferença entre os ingredientes naturais e os ingredientes sintéticos. Eu costumo dizer que assim, no RG de um elemento químico tem várias coisas lá. E tem duas coisas que são a toxicidade e a alergenicidade. Então todo elemento químico tem isso lá no seu RG. Isso é um negócio mensurável. Então quando o ingrediente nasce ele tem lá um número de toxicidade e um número de alergenicidade. 

E esses números para ingredientes sintéticos, eles são muito maiores do que esse número pra ingredientes naturais de fontes renováveis como os ingredientes que a gente usa. Então essa é uma primeira grande diferença.

Ah, mas Marcelo, as empresas de produtos de limpeza tão usando ingredientes proibidos? Não, não são proibidos. Mas são ingredientes que você sabe que possuem toxicidade e alergenicidade maior. Então a chance de você desenvolver algum tipo de intoxicação ou algum tipo de alergia a esses produtos, se não usados de maneira correta, é bem maior do que se você usar ingredientes naturais. Então é essa a grande diferença. 

E a gente também gosta muito da teoria do Cradle to Cradle. A gente não pensa em circularidade só quando tá falando da embalagem, então acho que a gente vai falar muito sobre isso. Mas também quando a gente pensa nos ingredientes, nossos ingredientes são naturais de fontes renováveis. Então a laranja ela é plantada, ela é colhida, ela é esmagada, você extrai os óleos todos que você extrai da laranja, os sucos, os concentrados. Depois você congela, depois tem parte que você não congela e depois isso volta de novo e o ciclo fica girando.

Carla: E aí tem essa questão né, essa sacada que vocês falam que os produtos “não levam água pra passear”. De ser um produto concentrado, que reduz essa demanda, tanto na embalagem plástica como no transporte. Então, como foi essa criação desse modelo?

Marcelo Ebert: É, a gente faz no Brasil 3 milhões e 200 mil toneladas de produtos de limpeza em um ano. Se você faz as contas todas e transfere isso pra embalagem de 500ml, a gente tá falando em 6.4 bilhões de frascos plásticos pra embalar essa quantidade toda de produtos de limpeza que são produzidos aqui no Brasil. 

Mais do que 90% disso, do que vai dentro desses 6.4 bilhões de frascos, é água. Porque os produtos de limpeza eles são feitos desse jeito, desde que o mundo é mundo. Eles são prontos pra uso, no jargão do mercado. Isso faz com que a gente tenha que, o nosso meio ambiente tenha que engolir 6 bilhões e 400 milhões de frascos de produtos de limpeza só aqui no Brasil. 
Isso não faz nenhum sentido. Isso é um baita de um absurdo. E a gente não poderia, acreditando nas coisas que a gente acredita, jogar mais lenha nessa fogueira. Então o que que a gente pensou? E aí acho que a gente trouxe um conceito do mercado b2b de produtos de limpeza, que é trabalhar com concentrados. Só que ao você decidir trabalhar com concentrados no mercado de household, no mercado de home care… Você tem que resolver o problema da diluição. Porque se você deixa esse pepino pra quem usa o produto no dia a dia, acaba que você tem desperdício, você tem mau uso. E aí o tiro acaba saindo pela culatra. 

Então a gente tinha que resolver esse problema do passeio da água, concentrando. Mas ao mesmo tempo resolvendo o problema da diluição – e por isso que a gente bolou essas cápsulas e esse borrifador de uso permanente. Que você usa a água que tá na sua casa, dilui a cápsula exatamente na quantidade correta. E você tem um produto pronto pra uso e à prova de falha. Então é praticamente impossível uma pessoa errar na hora de fazer a diluição. Porque o negócio é muito lúdico, é muito intuitivo.

Carla: Falando da própria embalagem, dessa circularidade das embalagens . Vocês pensaram então esses borrifadores que são reutilizáveis, as cápsulas são retornáveis. Eu já acho que ouvi falar que essas cápsulas retornáveis foi uma demanda que teve quando vocês lançaram, se quiser contar também sobre isso. E como que funciona a fabricação dessas embalagens e essa logística reversa.

Marcelo Ebert: Se você pega uma família média com um casal e dois filhos. Ele vai consumir por mês, comprando YvY, 1,3kg de material de limpeza. Desse 1,3kg mais ou menos 300g é plástico. Se ele for ter o mesmo consumo, o mesmo número de itens com produtos de mercado, o 1,3kg vai virar 13kg. Então são 10x mais. E as 300g de plástico, elas vão virar 1,5kg. Então são 6x mais. Então assim, a redução é brutal. 

Falando um pouco da circularidade. Isso foi uma demanda que a gente teve pro nosso escritório de design né, porque a gente não fez isso sozinho. Acho que eu sempre ressalto muito a questão do design na YvY, ela foi realmente muito importante. E a gente tinha no briefing... Eu tava revendo até ontem, que eu fui dar uma aula de convidado no MBA. Qual que foi o briefing que a gente fez pro design. A gente falava assim: precisamos trabalhar com concentrado, de qualquer jeito. A gente quer que o produto seja bonito, não pode parecer com produto de limpeza. Precisamos pensar em economia circular. E acho que basicamente eram esses os bullets do briefing.

Então desde o início… Acho que a gente teve uma facilidade também, mas não deixa de ser uma visão. A gente quis desenhar alguma coisa que já se adequasse à economia circular. Que pode ser bem mais fácil do que você mudar um produto linear pra um produto circular. Então a gente já pensou em fazer os borrifadores de um jeito que eles fossem duráveis. A gente tá há 3-4 anos no mercado, tem assinante que já tá há 4 anos com a gente e tá usando o mesmo borrifador.

E as cápsulas que são, vamos dizer assim, a menor embalagem que a gente tem e que essas ainda circulam né…. A gente fez elas de um jeito que depois que você usa e tira essa parte aqui, elas são empilháveis. E elas ficam como se fosse um tubo de copos empilhados assim. E aí na mesma caixa que a gente manda, a gente recebe. Manda um voucher pro assinante e recebe de volta essas cápsulas. A gente não pode reutilizá-las por conta de problemas regulatórios, a ANVISA não permite a reutilização de embalagens de produtos de limpeza. Mas a gente mói essas cápsulas e reinsere elas no processo de fabricação de novas cápsulas. Então com isso a gente consegue ticar o negócio da circularidade.

A história que eu conto é que quando eu lancei a marca, a gente já tinha pensado nisso tudo porque isso foi parte do projeto. Se você resolve pensar nisso depois, depois você já fez molde e aí já perdeu o trem. E eu lancei sem o fluxo de logística reversa, porque eu tava com muita coisa pra tomar conta e falei: ah vou deixar a logística reversa pra um segundo momento e vou usar muito forte o argumento de que uma família já tá consumindo 6x menos plástico do que consumiria se consumisse os produtos de mercado. Falei vou me segurar nessa aí e vou indicar a pessoa: o que que você fazia com as embalagens dos seus produtos de limpeza, continue fazendo a mesma coisa só que agora você faz com um volume que é 6x menor.
Cara, não teve jeito assim. Tomei muito tiro, muita flechada: “mas o que é que eu vou fazer com a cápsula?”. Era numa época que a Nespresso tava tomando muita flechada e muita confusão com relação a cápsula de café na Europa. Tinham cidades que tinham banido o consumo de café em cápsula. A gente tinha mapeado isso, até na época do projeto a gente tinha pensado se a gente ia chamar isso aqui de cápsula ou ia chamar de outra coisa. Resolvemos chamar de cápsula. 

E de fato o risco que a gente imaginou que a gente ia ter, de ter o assunto confundido com a cápsula de café, a gente teve. E acho que vale comentar que não faz nenhum sentido misturar os dois assuntos. Porque a cápsula de café ela acrescente embalagem pro meio ambiente e a cápsula de produto de limpeza ela tira embalagem do meio ambiente. E aí, rapidamente eu mudei de ideia e em 3 meses de empresa eu lancei o fluxo de logística reversa. Meio que amarrado com barbante, depois a gente ajeitou e deixou o negócio um pouquinho mais friendly.

Carla: E como que é a adoção? O pessoal manda de volta pra vocês?

Marcelo Ebert: Olha, a última vez que eu calculei era mais ou menos 5% da nossa base mandava de volta. No nosso processo, a pessoa precisa ir até uma agência de correio. A gente acha que a pandemia deve ter dado uma atrapalhada nesse negócio. Mas hoje o que as marcas tem, a gente tá rodando um piloto pra tentar pegar na casa das pessoas. Mas isso é uma coisa que a gente toma muito cuidado Carla, porque a conta tem que fechar e o modelo precisa parar em pé, porque se não não tem graça. 

A gente tá aqui pra fazer o que é correto, mas a gente tem que ver os limites operacionais e etc. E de custo realmente, porque eu não quero ter que mexer no meu preço porque agora eu tenho a logística reversa que eu pego dentro do apartamento da pessoa. Então a gente fica testando isso. É óbvio que escala é um negócio que influencia muito. Então a gente vai testando esses limites pra tentar oferecer a melhor alternativa pros nossos assinantes.

Carla: E qual que é o material das embalagens?

Marcelo Ebert: A cápsula é de PP, polipropileno.

Carla: Bem reciclável né, bem fácil de entrar num fluxo de reciclagem.

Marcelo Ebert: É, bem tranquilo. Mono-plástico. Assim, a gente desenvolveu um processo pra tirar o restinho de alumínio que fica. E tá rodando. 

Marcelo Ebert: O copo é de PET e o resto é de PP também.

Carla: Você mencionou essa questão da ANVISA que impede essa reutilização pra produtos de limpeza. Difícil, né? A gente tem muitas queixas da indústria, desse tipo de regulamentação que não parece fazer tanto sentido pra produtos de limpeza. Pra alimentos você até entende um pouco melhor. Mas qual seria o risco, você entende? Faz sentido essa regulamentação?

Marcelo Ebert: É, não acho que faça sentido. É algo que eu espero que mude no curto prazo. A gente participa de associações e tá vendo que existe um grande movimento pra permitir por exemplo venda de produtos de limpeza a granel… Não pode. Então acho que é uma legislação que não tá pronta pra modernidade de vida que a gente tem agora. Tá atrasada de fato e ultrapassada.

Carla: Bom e aqui a gente sempre gosta de fomentar essa rede do Brasil com esse tipo de iniciativa inovadora nacional. Então a gente queria saber como que você entrou em contato com essas ideias de economia circular, como foi esse processo… Você já contou um pouquinho da criação de um negócio circular. Se teve inspiração de fora do Brasil, como você adaptou isso pra nossa realidade ou não.

Marcelo Ebert: Acho que foi muito naquela pegada que eu te falei das coisas que não fazem muito sentido. Não faz sentido você movimentar 6 bilhões e 400 mil unidades de frascos pra você produzir, depois você joga água dentro, você passeia com ele pelo Brasil inteiro… E aí as pessoas depois precisam resolver esse problema, não existe o resolver né, o destinar. Destinar pra onde, entendeu? O planeta é um só. Então acho que nasceu muito desse absurdo que na nossa leitura é essa questão da linearidade da economia. E a gente se desafiou a criar um loop fechado pra resolver esse problema. E eu acho que a gente conseguiu uma solução bem equilibrada. 

Mas foi muito dessa inquietação mesmo, de não fazer sentido. E a circularidade, pra mim que sou engenheiro, que trabalhei em mercado financeiro. Sempre fazendo otimizações e reduzindo perdas. Cara, a circularidade é muito disso na minha cabeça. A linearidade é uma demonstração de que você tá perdendo coisas ao longo do processo. E a circularidade não, você tá lá e os recursos eles são melhor utilizados a cada ciclo.

Carla: E conta um pouquinho, Marcelo, sobre o modelo de negócio de vocês por assinatura. Como que tá sendo essa adoção e como vocês pensaram nisso?

Marcelo Ebert: Comprar produtos de limpeza no mercado era uma das coisas que na nossa cabeça não fazia muito sentido. Porque produto de limpeza tá sempre acabando em casa, você tá sempre precisando manter o seu estoque no nível ótimo. Porque em uma casa, e quem tem filho sabe, ou quem administra uma casa no dia a dia sabe que produto de limpeza quando acaba é confusão. Então assim a demanda é bem recorrente. 
Então não fazia muito sentido, a gente ver no século XXI pessoas se deslocando até varejistas pra carregar aquele peso de água. Não poder misturar com gêneros alimentícios, por saber que se esse negócio dá uma espirrada vai dar confusão. Tendo que fazer uma série de movimentos, depois tendo que guardar em casa, tendo um armário pra guardar produtos de limpeza. E depois se preocupar com o destino, que não existe.
Então a gente falou: vamos resolver esse negócio oferecendo uma assinatura. Cada um vai lá escolhe os produtos que quer. Escolhe o tamanho de uso que quer pra cada um dos produtos. E vai lá, faz a assinatura e pode mudar a qualquer momento, pode pular, pode fazer o que quiser. Não tem penalidade, não tem letra miúda. 

Na primeira entrega a gente manda os borrifadores e depois a gente vê o que que cada um quer fazer. Mês de férias eu tenho que lavar mais roupa, aí compra mais lava roupa. Olha agora eu tô com muita gente aqui em casa preciso lavar louça, compra mais lava louça. E vai fazendo esse balanceamento ao longo da jornada de relacionamento com a marca.

Marcelo Ebert: É, assim a gente tava acho que bem posicionado pra enfrentar esse momento bastante desafiador e difícil como sociedade. Então, longe de mim querer comemorar qualquer coisa advinda desse período horroroso que a gente tá tendo. Mas eu acho que como marca e como oferta a gente tava posicionado e alinhado com alguns comportamentos de consumo que antes eram tendência e eles viraram realidade. De uma hora pra outra a gente ficou trancado dentro de casa. De uma hora pra outra a gente perdeu as nossas ajudantes do lar, nossas empregadas domésticas e faxineiras. 

Então a gente precisou meter a mão na massa das tarefas domésticas e começou a ver: nossa, mas esse produto aqui realmente é muito ruim. As crianças estão de nariz escorrendo, os pets ficaram embaixo do sofá. Então você começou a se dar conta de coisas que você não via. Aí você começou a ver: nossa, mas quanta embalagem que a gente joga no lixo de produtos de limpeza. E aí você começou a ver: nossa, mas acabou, agora vou precisar sair, então…

O ato de você sair é um risco. Não, tudo bem que você tem que sair pra comprar arroz com feijão, e você compra produto de limpeza Só que cara, você já viu o volume do produto de limpeza? É muito grande. Você pode ir de bicicleta fazer determinadas compras. Mas se você tiver que comprar produto de limpeza, você vai ter que mudar o modal de transporte, entendeu? Porque o volume é muito grande. 

E a gente tava preparado, a gente era uma marca que tinha nascido digital. E a gente só entregava produto pelo delivery. Então a gente teve um aumento, continua tendo. O número de assinantes tá crescendo, a gente passou 5 mil assinantes. Isso ajudou muito a gente a construir awareness da marca, que é um grande desafio que a gente tem como marca entrante numa categoria tão importante. É construir awareness da marca e tirar o mercado consumidor dessa inércia que foi construída décadas, talvez até séculos, de hábito de consumo de um determinado tipo de produto dentro de um modelo comercial determinado com embalagens determinadas. 

Carla: Vocês atendem uma região específica, Marcelo, ou o Brasil todo? 

Marcelo Ebert: Não, Carla, a gente tem assinante em todos os estados. Obviamente a gente tem uma concentração maior na região sudeste. Que é onde a gente coloca a maior parte do nosso investimento de mídia. Mas a gente tem assinantes em todos os estados, desde que o iniciozinho assim. Eu me lembro do primeiro mês que a gente… Olha temos assinantes dos 26 estados.

Carla: Conta quais foram, e quais são ainda, os maiores obstáculos e desafios pra implementar um negócio circular no Brasil. 

Marcelo Ebert: Vou tentar dar uma resposta focada na circularidade. Assim, é uma complexidade a mais. Mas quando você pensa e planeja de maneira antecipada, essa complexidade ela meio que se esvai. Então assim, no nosso caso aqui eu diria que se a gente não tivesse “briefado”… E eu tô falando agora da questão das embalagens mais especificamente. Se a gente não tivesse “briefado” o nosso design de embalagem lá atrás, tivesse mudado de ideia ou tido essa ideia depois, talvez a gente tivesse um problema.

Como a gente fez lá atrás, eu acrescentei uma complexidade no projeto, mas depois que a gente passou por ela eu não tenho mais que lidar com isso. E a maneira como eu vejo agora, Carla, é que isso é um claim adicional da nossa marca. Quer dizer, olha a gente faz a logística reversa. Eu faço logística reversa da minha embalagem, entendeu. Não tô fazendo compensação de percentual que eu tenho bastante restrição com relação a esse tipo de metodologia do jeito que tá sendo feito.

Marcelo Ebert: Vira uma fortaleza, né Carla? Vira uma fortaleza agora da marca, entendeu. É mais uma coisa que me diferencia da concorrência. 

Carla: Mas e pra quem, assim… Tem gente que acompanha aqui que já tem um fluxo estabelecido de produção que começou linear e que quer fazer essa transição no meio do caminho, que é um pouco mais difícil. Você tem alguma sugestão pra esses modelos de negócio que já existem e querem se tornar circulares?

Marcelo Ebert: Carla, eu acho que começa o mais rápido possível. Porque se você não começar vai demorar mais pra você terminar. E eu acho que o mercado consumidor vai começar a penalizar quem não estiver pensando nisso de maneira completa. As marcas que não pensam nisso vão ser mais fracas do que as marcas que pensam nisso. 

Carla: Bom, obrigada Marcelo! Maravilhosa a conversa, muito bom saber aí mais sobre o modelo de vocês. É muito inspirador. E aí queria saber se você tem alguma mensagem, alguma dica final pra quem acompanha a gente nessa jornada de empreendedorismo circular aqui no Brasil. 

Marcelo Ebert: Quem é empreendedor circular, independente do setor, independente se é um empreendedor circular ligado a serviço, ligado ao produto… Eu acho que o que a gente tem que ter em mente é que do outro lado da linha tem pessoas. E essas pessoas elas precisam fazer escolhas. E no mundo que a gente vive, com esse atropelo gigante de coisas que a gente tem que decidir. Muitas dessas decisões, em determinados assuntos, elas são tomadas meio por inércia. 

O que esses empreendedores, o que nós empreendedores precisamos é tirar determinadas decisões que eram tomadas na inércia, pra que elas sejam tomadas de maneira pensada. Se a gente conseguir gradativamente fazer isso no maior número de setores, no maior número de mercados, eu acho que a gente vai conseguir provocar um resultado, de certa maneira, significativo. 

Marcelo Ebert: Claro. Obrigado Carla!

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